Um CONTO argentino

Este é um conto argentino.

O garçom agarrou primeiro a mais nova. Ela não reagiu. Nem ao expulsamento e nem às garras do homem cravadas em seu braço fino, quase sem carne ou gordura. Ela deixou-se levar mansamente. Em seu rosto nenhuma expressão.

Seus olhos eram vagos. A menina parecia estar imersa em uma escuridão monumental.

Enquanto esta cena desenrolava-se diante de olhares perplexos e confusos, constrangidos, a outra garota, mais velha, mais alta, aproveitou a oportunidade e penetrou mais fundo no salão.

Colocou-se de pé em frente a um casal que estava quase imóvel diante dela. Sua aparição foi inesperada. O casal não sabia o que fazer.

A menina, levando o olhar de um para outro, fazia um discurso cheio de palavras, curtas, ditas em tom muito baixo. Era quase um sussurro. O casal olhava. O casal não escutava.

Ela mantinha a cabeça levemente erguida e um suave e inocente sorriso no rosto. Era falso. Ensaiado naturalmente, pela repetição. Com o passar do tempo foi, intuitivamente, aprimorando, aperfeiçoando.

A menina já tinha dito este discurso tantas e tantas vezes ao longo de sua curta vida, que não mais prestava atenção em suas palavras.

O olhar do jovem casal oscilava entre o descontentamento de ter seu jantar interrompido, da lástima pela triste situação da criança e da agonia de não saber o que fazer.

Apesar de parecer que os três estavam encenando esta peça há mais de 1 hora, a verdade é que tudo durou apenas meio minuto.

O garçom, e suas garras, logo estava ao seu lado, olhar feroz. De maneira idêntica ao que fez com a primeira menina, enterrou seus dedos no braço dela.

Braço rechonchudo.

O salão era todo silêncio. Um silêncio mórbido.

Todas as atenções estavam voltadas para o espetáculo:

a menina que gritava;

o homem que lhe dizia palavras rudes;

o caminhar dos dois;

o debater-se dela.

Diferente da garota mais nova, ela lutou. Tentou se desvencilhar. O homem a arrastava com força. Até que, literalmente, a jogou na calçada.

Juntas as garotas não tinham 22 anos. A alma de ambas, contudo já estava corrompida, carregada, entupida. A pequena era pura tristeza. Tinha uma cor pálida. Cabelos curtos, mal cortados, sujos. Olhos sempre apontados para o chão, acomodada à vida que sempre lhe coubera.

A mais velha era uma líder, uma sobrevivente. Olhou a vida de frente, trincou os dentes, armou o espírito e lutou. Era uma guerra perdida, mas ela cairia lutando.

Fez de seu interior um muro, de concreto. Nada mais a atingia. Estava imune. Endurecida. Encarcerada em um mundo sem cores. Preto e cinza era tudo o que existia. Ela, a pequena e o resto: inimigos.

Do lado de fora do salão, a mais velha, gorducha, cabelo longo e negro, pegou a menina mais nova pela mão, sorriu largamente e saiu saltitando, enquanto a pequena se deixava levar, arrastando os pés.

Nossos olhares se cruzaram por um fugaz segundo. Um mundo inteiro de emoções cruzou meu coração como um raio. Ela alargou ainda mais o sorriso, seus olhos eram gélidos. Ela seguiu seu rumo.

By |2017-09-22T18:26:54+00:0022/09/2017|Categories: Cenas das Cidades|Tags: |4 Comentários

4 Comments

  1. maria luiza wallau 22/09/2017 em 18:52 - Responder

    Muito bom. Profundo.

  2. Klécia Cassemiro 28/09/2017 em 15:59 - Responder

    Leio e quero saber mais, quero saber tudo! De onde vieram, o que falaram, pra onde foram? Essa foi a cena das cidades mais bonita e mais profunda até agora no espiando. Poderia jurar que seriam meus contos fantasiosos se não soubesse que você costuma escrever cenas que presenciou. Ana, ainda pedindo de todo coração para você, um dia, escrever aquele livro. Sua fã desde sempre <3

    • Analuiza Carvalho 02/10/2017 em 10:10 - Responder

      Oi Klécia… rindo muito sobre a ideia do livro! ehehehehe

      Quando a ficção termina e onde começa a realidade?! Onde e quando elas se misturam? Se completam? Se excluem?! Quando as cenas da cidade são apenas fruto de minha imaginação ou receberam pinceladas da realidade pulsante dos lugares?!

      Nem tudo o que vemos ou lemos é real! rsrsrs

      Fico feliz em saber que gostou desse pequeno conto argentino!
      beijus

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