Um ano de MILAGRES de Geraldine BROOKS

Primavera, 1665. Pétalas de Rosas. Uma aldeia no centro da Inglaterra. Um novo morador, simpático e gentil. Uma doença que matou mais da metade da população. Um ano de milagres de Geraldine Brooks, obra de ficção inspirada em fatos reais. Um pedaço da cíclica história do mundo.

Este livro não é meu. Pertence a Leo. Ocupa um espaço em nossa casa que chamamos biblioteca, cheio de prateleiras, livros das mais variadas temáticas, repleto de muita vida e bagunça. Ele leu primeiro. Recomendou. Em tempos de isolamento social – lá se vão 34 dias – por conta do COVID-19, fiquei curiosa para ler este romance dos tempos da peste.

Como será que as pessoas daqueles distantes anos, venceram a doença?!

Anna Frith

A jovem Anna Frith é moradora da aldeia. Viúva, sustenta sozinha, com muito trabalho, dois filhos pequenos. Seu marido morreu num acidente na mina. Um dia chega por lá, um alfaiate em busca de um lugar para se hospedar. Anna aluga para ele o sótão de sua casa e com o dinheiro, ela complementa a renda familiar.

Anna e George Viccars viram bons amigos. Ele já viajou para muitos lugares e conta histórias para ela, enquanto costura. George levou um mundo novo para Anna. Ela é curiosa e gosta de aprender e portanto, se delicia com suas narrativas. Ele é um bom contador de casos. Eles começam a se gostar.

George Viccars

Uma manhã, Anna saiu para trabalhar na reitoria e Viccars ainda não havia se levantado. Quando ela regressou, já por volta do meio-dia, o silêncio incomum tomava conta da casa. Nada dos risos que o alfaiate trouxera com sua vinda àquele lar. Nenhum grito de alegria do pequeno Jamie, filho mais velho de Anna.

Anna foi até o sótão para vê-lo. Diz ela:

“Quase deixei cair o vaso cair por conta do choque. (…) George Viccars estava deitado com um caroço do tamanho de um porquinho recém-nascido na cabeça(…). O rosto (…) estava vermelho, ou melhor, inchado, com formas que lembravam pétalas de rosas desabrochando sob a pele. (…) o travesseiro estava ensopado de suor. No sótão, um cheiro doce e pungente. Cheiro parecido com o de maça podre.”

Em pouco tempo, George Viccars estava morto. Anna ficou triste. A peste havia chegado na pequena aldeia inglesa, de pouco mais de 300 habitantes. Quando a doença passou de suspeita a fato, quando os aldeões se deram conta do que tinha acontecido com o pobre alfaiate, o medo tomou conta de todos.

O medo

O medo é negócio esquisito que faz com que as pessoas cometam atos impensáveis quando ele não está presente.

Um ano em que pessoas morreram. Um ano em que todos tentaram entender porque Deus os estava punindo. Um ano de lágrimas, pavor e sofrimento. Eles tentaram manter a esperança no coração. Não foi fácil!

Cada um reagiu ao pânico de uma maneira diferente. Houve choro, assassinato, fuga, autoflagelo, loucura, desconsideração, negligência, dor, vergonha, usura, roubo… O medo pode conduzir à barbárie!

Até que um dia, se despindo de tal sentimento que aprisiona, encarando a morte, a doença e os fatos, eles perceberam a causa da peste e o que deveria ser feito. Eles venceram, mas as marcas que ela deixou nunca mais cicatrizaram. O comportamento humano mudou?!

Hum…

Um ano de Milagres de Geraldine Brooks

 

A decisão

Quando se deram conta que a peste havia invadido a aldeia, os moradores tomaram a decisão de se isolarem. Ninguém entrava, ninguém saía. Os itens necessários à vida na comunidade vinham de fora: uma lista era deixada na Pedra da Fronteira, nos limites do vilarejo, mesmo local onde dias depois eram colocados os pedidos.

Não havia contato humano entre os de dentro e os de fora.

O objetivo era não levar a doença para outros lugares, não espalhar a peste. Além disso, poderiam ficar em suas casas, com seus amigos e sua família, sem correr o risco de serem maltratados e escorraçados pelo pânico das pessoas em outras aldeias. Proteger e ser protegido.

Tudo, entretanto tem um valor e ah, a mente humana!

“Quanto a nós, nos preparávamos para aprender a viver na grande prisão verde que escolhemos.  (…) É difícil dizer por que o juramento pesava sobre mim, pois se me aventurava meia dúzia de vezes por ano para além dos limites que agora nos confinavam. (…) olhei com anseio pelo caminho proibido.”

A vida por lá mudou, começou a girar em torno de poucas e repetidas ações: consolar os moribundos, enterrar os mortos, rezar e começar tudo de novo. Onde estava Deus se perguntavam todos! Eles não eram devotos e tementes a Deus?! Por que estavam sendo tão duramente punidos?!

Mais da metade da população sucumbiu à doença.

A mudança

Anna trabalhava meio período na casa do reitor e sua esposa: Michael e Elinor Mompellion. Durante o surto da peste, o casal foi incansável em ajudar, socorrer, consolar as pessoas do vilarejo. Os três juntos, buscavam entender como as pessoas se infectavam e o que era possível fazer para se curar.

Baseando-se na observação e testes, eles conseguiram vencer a epidemia: higiene, fortalecimento do sistema imunológico, distanciamento social, apesar da doença ser transmitida por pulgas e não por salivas e afins, o parasita se espalha facilmente.

Alguma semelhança com certo momento vivido no século XXI?!

A peste bubônica “é uma forte infecção provocada por bactérias que produzem potentes toxinas. As feridas da peste – bulbões – são nódulos linfáticos que se transformam em tecido necrótico, hemorrágico. Em um ou dois dias, vastos números de bactérias invadem a corrente sanguínea, resultando em febre de 41°C de febre, hemorragia e trombose.”.

Segundo a OMS a peste ainda existe e continua infectando de mil a três mil pessoas por ano, embora já não mate tanto por causa dos antibióticos.

O desfecho

Um ano de Milagres de Geraldine Brooks

 

O livro de Geraldine Brooks é sensacional. Sua narrativa suave, apesar do tema duro e da melancolia constante grudada em cada palavra, me agarrou desde o primeiro parágrafo. Fui navegando tranquilamente, observando o desenrolar deste um ano de milagres pequenos e muita tristeza.

Anna Frith é quem dá voz a esta história. Através de seus olhos, de seus sentimentos, de suas dores, fui acompanhando o desenvolvimento da triste trajetória dos moradores da aldeia. Uma personagem bonita, de bom coração, inteligente, curiosa e sensata.

Outono 1666. Tempo de Colher Maçãs.

“Eu costumava amar essa época do ano. (…) O rumor das maçãs rolando para dentro dos depósitos no porão. Odores e cenas e sons (…).” 

O final de Um Ano de Milagres é muito surpreendente. Inesperado! Em princípio me causou desgosto, desagrado, mas depois… Sim, gostei! Muito! A epidemia foi vencida e Anna teve um merecido final feliz. O destino que lhe coube esteve a altura de sua alma generosa.

Eu na Inglaterra

Na região onde aconteceu a história eu nunca estive, mas à medida que fui lendo Um ano de milagres, eu fui pensando em Lacock, pequeno vilarejo de pouco mais 1000 habitantes que eu visitei na primeira vez em que estive na Inglaterra.

Cenário de filmes como Harry Potter e da série Downton Abbey, este é um lugar que eu gostaria de voltar, um dia.

Lacock, que teria sido fundada no século XIII, está cerca de 200 quilômetros distante de Eyam, Derbyshire, a cidade real onde houve o surto de peste no século XVII, que inspirou o livro de Geraldine Brooks.

Um ano de Milagres de Geraldine Brooks

Tínhamos nova viagem marcada para o país, agora em março/2020. Seria minha terceira vez na Inglaterra. Naturalmente, por conta do Covid-19, foi cancelada, sem novo planejamento, por enquanto. Um dia, voltaremos a circular pelo mundo, em novos caminhos, eu espero.

Fico contudo a pensar, como nós, pessoas do século XXI, iremos vencer enfim a pandemia de nossos dias.

Por fim, fica a reflexão de que devemos valorizar cada pequena benção, cada pequeno milagre que acontece cotidianamente em nossas vidas. Momentos assim, deveriam sempre nos fazer pensar o que queremos levar dessa vida.

“Nos dias que se seguiram, tive ideia de como seria a vida se sobrevivesse àqueles tempos e chegasse a uma idade avançada. É maravilhoso ser jovem e viver sem dor. É, todavia, uma benção que poucos de nós respeitamos, até que perdemos.”.

Um Ano de Milagres

Autor: Geraldine Brooks (Austrália)

Editora: Nova Fronteira

Números de Páginas: 326

FIM

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By |2020-04-22T17:15:04+00:0022/04/2020|Categories: O Mundo nos Livros|Tags: , , |2 Comentários

2 Comments

  1. Joaquim Reis 27/04/2020 em 15:25 - Responder

    Adorei a sua resenha, mto boa!

    • Analuiza Carvalho 28/04/2020 em 06:43 - Responder

      Obrigada Joaquim! Um ano de Milagres é um excelente livro! A narrativa de Brooks é maravilhosa! 🙂 Recomendo muito esta leitura!

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