O SLAVE Lodge – o EMOCIONANTE museu da ESCRAVIDÃO na Cidade do CABO, África do Sul

O Slave Lodge na Cidade do Cabo fala do ontem, mas diz muito sobre o presente também. A escravidão institucionalizada acabou, mas ela continua existindo das maneiras mais variadas, camufladas, expandidas. O homem segue explorando o homem.

O museu da escravidão conta sobre violência, resistência, força, sobrevivência, morte, dor e tristeza, mas o Slave Lodge fala também de cultura, mostra coisas bonitas, borrifa esperança num mundo muito melhor. O futuro pode ser bom, se mudarmos o presente.

O Slave Lodge propala a vida dos escravos na Cidade do Cabo: quem eram, de onde vieram, como foram incorporados ao cotidiano da cidade e como influenciaram a cultura local.

Visitamos o Slave Lodge numa manhã de Sábado, o Sábado de Aleluia, data comemorativa cristã – o primeiro dia depois da crucificação de Jesus. A cidade estava mais ou menos adormecida ainda. Poucas pessoas além de mim e de meu casal de amigos estavam por ali.

Eu percorri aquelas salas aninhadas, uma a uma, sem pressa. Ali eu conheci mais um pedaço da história da Cidade do Cabo, uma cidade que até então eu pouco ou nada sabia.

A violência contra as mulheres e crianças

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul

O Foyer do Slave Lodge – a violência pelo mundo

A visita ao Slave Lodge começou logo na entrada, ainda no lindo foyer do edifício. Havia ali uma exposição sobre a violência pelo mundo: contra a mulher, contra a criança: fotos, fatos, depoimentos. Os dados como sabemos são assustadores. Estarrecedores!

Unicef estimates that 1.2 million children are trafficked worldwide each year in thriving trade that is increasing. About 300.000 child soldiers are serving in conflicts worldwide. ”. Dizia um dos cartazes.

Mulheres contam seus dramas: grávidas espancadas por maridos bêbados, com as almas arrebentadas por relacionamentos violentos, corpos assassinados. Mulheres que sobreviveram. Rostos e histórias escancaradas para nós.

O presente em pauta.

O passado escravocrata do Cabo

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul

O mapa da escravidão em séculos passados na região do Cabo

Respirei fundo e segui em frente, desta vez para voltar alguns séculos no passado de Cape Town, ao seu ontem escravocrata. Informações sobre a chegada dos escravos à cidade – 1658, seis anos após a VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) estabelecer uma base aqui.

Notícias antigas de onde os escravos vieram – sul e sudeste da Ásia prioritariamente (Índia, Sri Lanka e outros), as razões para terem sido trazidos e das rotas e como estes escravos, homens, mulheres e crianças, fizeram parte do cenário da cidade e formataram seu cotidiano.

A escravidão, não só na região do Cabo, como ao redor do mundo.

Para ilustrar, e nos colocar em outra dimensão de entendimento da crueldade, o Slave Lodge abriga uma réplica em grande escala do Meermin um navio negreiro construído em 1749 na cidade de Amsterdam, Holanda. Chegou na Cidade do Cabo em 1761.

Sua última viagem aconteceu em 1766 quando ia de Madagascar para a Cidade do Cabo carregado de escravos. Houve um motim durante a travessia, onde tripulantes e escravos foram mortos. A rebelião foi controlada, mas o navio encalhou e por ali ficou.

Estima-se que a VOC transportou cerca de 63.000 escravos ao longo de 30 anos. Os escravos trouxeram com eles suas culturas. Não à toa a Cidade do Cabo, fato que me surpreendeu, é muito internacionalizada. Há imigrantes de muitas partes e influências gastronômicas de muitos países. Influíram ainda na linguagem, religião e claro no artesanato.

Os relatos de antigos escravos são emocionantes!

O Brasil representado no passado escravocrata do mundo

O Brasil está retratado através do navio português intitulado São José que naufragou na costa do Cabo. Ele levava cerca de 500 escravos de Moçambique para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar no nordeste brasileiro no ano de 1794. Quando passava por Camps Bay, já estava há 1 mês navegando. Ainda tinha mais ou menos 3 meses de viagem.

Era noite quando avistaram a montanha Lion´s Head. Um vento forte impediu o São José de entrar na Table Bay. O capitão resolveu seguir pela costa e na madrugada o navio bateu numa rocha e começou a tombar. A tripulação trabalhou arduamente para evitar o naufrágio do navio, mas o vento aumentou, quebrou as âncoras, cordas. O mar ficou ainda mais violento.

O navio negreiro afundou: toda a tripulação e muitos escravos se salvaram, mas pelo metade deles morreu. Os corpos nunca foram encontrados, mas recentemente destroços do São José foram achados.

Arte, cotidiano, identidade

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul

Arte, cotidiano, identidade

Há exposições de objetos antigos como relógios, âncoras, canhões e instrumentos musicais de séculos variados, mas que estão ligados à vida no Cabo. Uma curiosidade sobre o cotidiano da região:

Os sinos dos navios também foram usados ​​mais tarde nas fazendas do Cabo para regular a vida dos escravos. Do nascer ao pôr do sol, seu trabalho foi ditado pelo som do sino. A torre do sino sobreviveu como destaque de muitas fazendas holandesas do Cabo”.

Há uma exposição de cerâmicas diversas feitas no continente africano, onde as diferenças são manifestas. Bárbara! Objetos culturalmente ricos, complexos, com várias técnicas sendo empregadas para a criação desta forma de expressão, artística e funcional. Antigamente somente as mulheres faziam as cerâmicas, mas hoje em dia os homens também são artesãos desta arte.

IsiShweshwe – identidade através dos tecidos

Uma das salas atrativas do Slave Lodge é uma que conta a história da indumentária Xhosa, um dos povos nativos da região, um tecido de nome isiShweshwe que está ligado, entre outras coisas, à resistência política e isso torna sua longa narrativa tão interessante. O isiShweshwe é um tecido de algodão tingido de azul, técnica simplificada da multicolorida.

Foi difundido em muitas partes do mundo. Na Cidade do Cabo era usado pelo povo Xhosa e escravos. Ainda hoje as roupas de isiShweshwe são usadas por mulheres na zona rural. Estas roupas estão repletas de conotações e simbologias. Uma roupa não é só uma roupa. Tanto que é comum encontrar símbolos desenhados no tecido como o rosto de Nelson Mandela, por exemplo.

Era constantemente usado para expressar sentimentos nacionalistas.

A moda é sim, representativa, não só individualmente como coletivamente. Nos anos 70 e 80 muitas mulheres brancas na África do Sul usaram isiShweshwe em solidariedade ao fim do Apartheid. Atualmente muitos designers estão utilizando para dar identidade visual à moda produzida no país. Além disso, a técnica invadiu as passarelas da alta costura no mundo. Na exposição tem modelos maravilhosos!

A origem do isiShweshwe estaria na Índia.

Atualmente contudo, somente a Da Gama Têxteis na região do Cabo produz os genuínos isiShweshwe.

O Apartheid no Slave Lodge

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul

Contudo, para mim, as salas mais tocantes do Salve Lodge foram aquelas em que falavam do Apartheid. Talvez por ser um movimento hediondo mais recente, que ainda represente muito o mundo em que vivemos. Cinza ainda, mais com alguns raios de sol poderosos já brilhando.

God Save the Volunteers

God Save the Volunteers,

God Save Africans,

God Save Africans. We say yes, yes.

Chief Luthuli, and you doctor Naicker, Liberate us

We say yes, yes, Chief Luthuli and you doctor Naicker,

Liberate us” – Campanha do Desafio contra o Apartheid de 1952, adaptado do God Save the Queen.

Há ambientes que nos contam sobre a resistência ao sistema separatista: canções, poemas, invocações, discursos e reinvidicações! As canções mexem com a alma e com o coração da gente. Durante os anos de segregação racial na África do Sul, as músicas eram não só uma forma de entretenimento, mas também de comunicação e protesto.

Nos 1960 muitos artistas foram para o exílio para não serem presos ou para protestar contra o sistema vigente na África do Sul. Memórias dos anos 1970: canções e camisetas, contestações. Podemos ouvir as canções da época e eu viajei no tempo e no espaço e me deixei ficar por ali, sentindo aquilo que vi, mas que não vivi.

The Ballad of Sharpeville

From the Cape to South West Africa

From the Transvaal to the Sea

In a Farm and Village, Shanty town

The pass law holds the people down

The pass of slavery.

By Ewan Maccoll, 1960

Foi uma imersão muito forte e comovente, além de informativa sobre a história não só de Cape Town como da África do Sul. Para mim, necessária para compreender um pouco mais tudo aquilo que conheci e vivenciei na cidade que me acolheu por alguns dias. Para entender um pouco do mundo.

O prédio secular que abriga o Slave Lodge

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul

O prédio que abriga o Slave Lodge na Cidade do Cabo, África do Sul

O edifício que abriga o Slave Lodge tem sua própria história. Sua estrutura me lembrou uma grande caixa, o que me pareceu extremamente adequado por conta de todas informações que ele abriga. Seu interior guarda ainda muita beleza, que fica em segundo plano diante de tudo o que é narrado ali dentro.

Este é um dos mais antigos edifícios da África do Sul, datando lá dos anos de 1660. Com tantas décadas de existência, naturalmente serviu a muitas e variadas funções: já atuou como bordel, cadeia e asilo para doentes mentais. Já foi correio, biblioteca e até a Corte Suprema do Cabo já ocupou os espaços deste antiquíssimo prédio. Estima-se que mais de 1000 escravos ficaram abrigados aqui.

Há uma área aberta no centro do conjunto onde encontramos elementos antigos como um poço.

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul

O Slave Lodge na Cidade do Cabo na África do Sul: área aberta onde encontramos elementos seculares

Informações adicionais

Endereço: 49 Adderley Street

Bilhetes: R30

Horário de funcionamento: de segunda a sábado das 10:00 às 17:00

Quer conhecer outro lugar antigo e histórico na Cidade do Cabo?! Então clica no link bem aqui abaixo!Cais da Ilha de Genebra

+ Greenmarket Square: feira de artesanato e prédios antigos

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O Slave Lodge na Cidade do Cabo, África do Sul

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Cais da Ilha de Genebra

By |2018-08-13T15:11:26+00:0013/08/2018|Categories: África, África do Sul, Cidade do Cabo|Tags: |0 Comentários

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