O Botão de Puchkin de Serena Vitale

O Botão de Puchkin conta a história dos últimos meses de vida de Aleksandr Sergueievitch Puchkin, considerado um dos maiores poetas russos, morto em 1837 num duelo de honra com o francês Georges d´Anthes.

O poeta agonizou por dois dias antes de morrer. Ele tinha em tal ocasião 37 anos. Sua morte comoveu o país, virou notícia no mundo e muito se falou desde então.

Leo, meu querido marido, me deu de presente O Botão de Puchkin uns 4 anos atrás, alguns depois de termos visitado a Rússia por duas semanas, e desde então ele está guardado em minha estante de livros, esperando sua vez de ser lido.

Esse momento chegou durante a pandemia do Covid-19. Lá se vão quase 5 meses em isolamento social, saindo apenas para correr, com muitos e variados cuidados: comigo e com os outros. Voltei então à Rússia, sem sair do conforto de meu sofá.

Leitura arrastada

O Botão de Puchkin da autora italiana Serena Vitale não foi uma leitura agradável para mim, bem ao contrário disso, foi muito cansativa! Me arrastei página a página, levei semanas para finalizar, enfadada com aquela história.

Contudo, no final e afinal, gostei de ter concluído e conhecido um pouco mais sobre a vida e os personagens reais da Rússia imperial, então sob o comando do czar Nicolai I, durante o século XIX.

O Botão de Puchkin de Serena Vitale #literatura

São Petersburgo na Rússia

O cenário de O Botão de Puchkin é a magnífica São Petersburgo, a cidade dos czares, em seus tempos anteriores à Revolução russa, situada às margens do Rio Neva. Passamos dias memoráveis por lá, em meio à beleza extraordinária de Peters.

Tudo nesse lugar, a cidade de Pedro, me pareceu ser grandioso, imponente e fora do comum.

O Botão de Puchkin de Serena Vitale #literatura

Em São Petersburgo: uma cidade excessivamente linda

A vida na corte, à época de Puchkin, era cheia de fofocas e muitos mexericos. Vários deles amplamente documentados através de longas cartas trocadas entre amigos e familiares e documentos do sistema de vigilância russo, além de diários pessoais.

Através dos olhos de muitos, e dos escritos e correspondências do próprio Puchkin, Serena Vitale vai traçando, ou tentando, o perfil do poeta. Nada fácil: de temperamento irregular, ele parece abrigar muitas personalidades num só corpo. Desconfio, que poucos o conheceram realmente.

Quem era Puchkin afinal e o que motivou, realmente, a insistir, contra todos os conselhos e o bom senso, naquele duelo, que terminou sendo fatal para ele?!

Claro, que o que lemos são perspectivas, pontos de vista e interpretações. Não raramente, as informações sobre determinada situação, são conflitantes. A autora, então, esmiúça, especula, reflete, imagina, de modo fatigante, cada pormenor destes conflitos.

Algumas vezes ela se rende ao fato de que nunca saberemos a verdade.

Esse esquadrinhar intenso, tão detalhista, tornou a leitura para mim pouco atrativa e muito cansativa. Ainda nas primeiras páginas me vi navegando lentamente, procurando vencer o desinteresse que aqueles mínimos detalhes me causavam.

Uma narrativa mais enxuta, talvez fosse mais interessante ao meu gosto literário.

O que motivou Puchkin a duelar?!

A morte de Puchkin sempre despertou interesse em muitas pessoas ao longos dos anos subsequentes ao seu assassinato. A poetisa Anna Akhmátova (1889, Odessa – 1966, Domodedovo), foi uma dessas pessoas que especulou sobre as motivações, o estado de ânimo e temperamento de Puchkin, naqueles últimos meses.

“Como estudiosa de Puchkin, incluo-me entre aqueles para quem o tema de sua tragédia familiar não deve ser discutido. (…) E se, mesmo com tudo isso, encarei o assunto, foi apenas porque sobre este se escreveram muitas mentiras grosseiras, terríveis, e os leitores, acreditam com tanta facilidade nas primeiras coisas que aparecem…”

A escritora Serena Vitale argumentou em alguns trechos contra declarações especulativas da poetisa, discordando dela, que sempre defendia as posições adotadas por Puschkin, defendendo sua honra.

Na Rússia

Desde que começamos nossas pesquisas de planejamento para nossos quinze dias na Rússia que nos deparamos com informações a respeito de Puchkin. Não li nada do escritor, mas passei um momento excelente tomando chá no lindo Café Puchkin em Moscou.

O curioso é que o café não tem nenhuma relação com o poeta, sendo inaugurado muito tempo após sua morte, ao contrário da região, muito frequentada por ele, quando vivo e estava na capital russa.

O Botão de Puchkin de Serena Vitale

Café Pushkin em Moscou, Rússia

Em São Petersburgo, magnífica e exuberante cidade, além de inúmeras igrejas, museus, casas-museu, teatro e forte, visitei ainda a antiga casa de Anna Akhmatova. Também ainda não li nada da poetisa russa, mas conhecer um pouco de sua vida através do lugar onde ela morou, foi saber um tanto assim de como era estar sob o regime comunista.

Esse foi um dos programas mais legais que fiz na cidade czarista, que me proporcionou momentos inesquecíveis!

O Botão de Puchkin de Serena Vitale #literatura

Em frente ao maravilhoso Museu Hermitage

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Na casa de poetisa Anna Akhmátova

Ter diante de meus olhos, à medida que eu fui lendo o massante O Botão de Puchkin, locais da belíssima São Petersburgo, na época do czar Nicolai I, foi um passeio envolvente. Observar o Palácio de Inverno, no primeiro dia do ano de 1836 quando “um longo cortejo acompanhou o imperador e sua família à igreja do Palácio de Inverno(…)” foi sensacional.

Conheci o Palácio de Inverno, residência dos czares russos quando, naturalmente, ele já tinha se tornado o fascinante Museu Hermitage. Este é um dos edifícios mais extraordinários que já vi: tanto por dentro, quanto por fora.

A Nevsky, principal avenida da cidade, onde a nobreza passeava e conversava. Eu, séculos depois, caminhei tantas e tantas vezes por essa encantadora rua, onde pude observar um pouco da vida petersburguense atual.

Os personagens principais dessa trágica história da vida real

Embora toda a sociedade fizesse mexericos sobre o suposto triângulo amoroso formado por Puchkin, sua esposa Puchkina e d´Anthès, foram quatro os personagens envolvidos neste drama de traição e ciúmes que culminou com o duelo fatal. Incluímos aí o Barão Heeckeren.

Os mistérios que envolvem essa história são muitos. Contudo, várias peças ficaram faltando, muitas contradições foram encontradas.

Uma trama que nem parece real: ciúmes, fofocas, espionagem, intrigas, cartas anônimas, duelos… Esquecia, por vezes, que aqueles eram fatos. Cheguei a torcer para que o duelo não acontecesse, como se autora pudesse mudar o final.

De todos os personagens principais, o que me pareceu mais intrigante, odioso e atraente, pulsante e patético, intenso, foi a figura de Puchkin. Controverso, rebelde, insensato, inteligente, furioso… difícil entender as motivações, nem povo e nem aristocrata.

O escritor russo Gogol

A Rússia de Nicolau I (1796, Gatchina – 1855, São Petersburgo) era controlada e vigiada. Nada se fazia sem que os censores soubessem, sem que o império autorizasse. As obras de Puchkin eram censuradas, cortadas, mutiladas. O poeta era observado de perto.

Acontecia o mesmo com outros escritores e poetas como Nikolai Vasilievich Gogol (1 de abril de 1809, Velyki Sorochyntsi, Ucrânia – 4 de março de 1852, Moscou, Rússia), contemporâneo de Puchkin, um dos meus autores russos favoritos. A leitura de seus livros me rendeu boas e muito fartas risadas.

“Nada escapava aos censores. Do conto Caleches de Gogol, (…), foram expurgadas algumas  “expressões indecentes” como: “o último botão dos senhores oficiais estava fora da casa””.

Visitar a casa de Gogol em Moscou me proporcionou momentos apaixonantes, cheio de muita ternura e simpatia e algumas histórias inesquecíveis em solo russo, de total acolhimento.

As correspondências das pessoas na Rússia do czar Nicolai I eram violadas, as vidas bisbilhotadas pelas polícias, de longos braços, e pelos censores, em nome de manter a ordem, a paz e a segurança de todos os russos.

Lemos então, em O Botão de Puchkin, cartas do poeta, onde ele usa estrategicamente sua correspondência privada para falar ao czar, para dizer, de modo velado, o que pensa. Ele sabia que o imperador russo, teria ciência de suas palavras.

Talvez este seja um dos maiores valores da narrativa: nos mostra as engrenagens da Rússia oitocentista, da época do czar, numa das mais belas cidades do mundo.

A narrativa construída através de terceiros

A autora vai construindo ao longo das muitas páginas de O Botão de Puchkin, a personalidade difusa do poeta, baseada nas informações fornecidas por aqueles que conviveram com ele, como por suas próprias palavras registradas aqui e acolá.

A modorrenta correspondência russa e diários privados ajudam a entender apenas um pouco de sua complexa personalidade, tão importante para tentar detectar o que o motivou a duelar com o francês. Ciúmes somente, apenas, também?!

“A esfuziante cortina de jocosidade escondia aos olhos do mundo um confuso emaranhado de apreensões, incertezas, sobressaltos. Por trás do sorriso de Puchkin, havia cansaço”.

O Botão de Puchkin de Serena Vitale #literatura

Enfim, o duelo…

Os duelos eram proibidos na Rússia. Konstantin Danzas, padrinho de Puchkin no duelo, entretanto, foi perdoado pelo czar, ficando apenas dois meses preso na Fortaleza de Pedro e Paulo, em vez de sofrer a pena capital prevista.

Em meus dias em Peters, eu visitei a fortaleza, um dos grandes atrativos da cidade, pela história que ela conta e por sua estrutura, podendo entrar inclusive na antiga prisão.

Os capítulos de O Botão de Puchkin não são muitos longos, cerca de 10 ou 12 páginas cada um deles. Contudo, eles me tomavam muitos dias. Eu me arrastava lentamente por linhas, parágrafos, pouco interessada em tantos detalhes.

A narrativa não fluiu para mim e por diversas vezes pensei em abandonar, mas segui firme até o final. Confesso, que me senti triste com a morte do poeta. Ao longo da narrativa, acabei me envolvendo e gostando dele. Mesmo com tantas lacunas a respeito de suas razões e muitas vezes tolas ações.

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O Botão de Puchkin

Autora: Serena Vitale (Itália e Rússia)

Editora: Record

Números de Páginas: 327

FIM

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O Botão de Puchkin de Serena Vitale

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By |2020-08-05T16:26:03+00:0004/08/2020|Categories: O Mundo nos Livros|Tags: , , |14 Comentários

14 Comments

  1. Marcella Buchalla Pacca 11/08/2020 em 15:54 - Responder

    Puxa, que pena que a leitura foi arrastada, mas adorei a temática do livro e acho sempre bom ter referências antes de visitar um país. Obrigada pelo review!

    • Analuiza Carvalho 12/08/2020 em 06:33 - Responder

      oi Marcella… pois é… a leitura se arrastou, mas no final, me mostrou um pouco sobre a vida na corte de Peters. Foi bom voltar à cidade dos czares!:)

  2. Gabriela Torrezani 24/08/2020 em 05:56 - Responder

    É engraçado como às vezes um livro arrastado e difícil consegue nos conquistar mesmo assim, né? Fiquei curiosa e quero tentar o desafio de ler o Botão de Puchkin.

    • Analuiza Carvalho 24/08/2020 em 14:55 - Responder

      Tente Gabi… Depois me conte o que achou, se O Botão de Puchkin te interessou, te arrastou, te entediou ou te arrebatou! rsrs bjokas

  3. Rui Barbosa Batista 25/08/2020 em 03:06 - Responder

    São Petersburgo é uma cidade incrível e explorar deste éden através da literatura é uma das melhores experiências que podemos ter em viagem. Ainda bem que esses duelos de honra já passaram de moda… 😉

  4. Bruno M de S Silva 25/08/2020 em 07:17 - Responder

    Ótima leitura para se fazer durante a pandemia que estamos vivendo. Nunca havia ouvido falar do livro O Botão de Puchkin de Serena Vitale mas me interesso demais pela cultura e história da Rússia. Adorei a sugestão!

    • Analuiza Carvalho 25/08/2020 em 09:55 - Responder

      oi Bruno… então se jogue nessa história (O Botão de Puchkin), para conhecer costumes e saber um pouco mais sobre um dos maiores poetas russos! 🙂 bjus

  5. VICTORIA M FARINA 25/08/2020 em 07:19 - Responder

    Acredita que estou cheia de livros na cabeceira e não tive vontade de ler nenhum ainda durante a pandemia? Talvez sejam os assuntos que não me interessam, curti a ideia de ler O Botão de Puchkin, quem sabe não me animo e comeco tardiamente minha leitura durante o lockdown.

    • Analuiza Carvalho 25/08/2020 em 09:53 - Responder

      Acredito! Para tudo seu tempo e sua hora! rsrsr eu estou lendo menos no isolamento também, mas não por falta de vontade e sim de tempo! Sinto falta de dias inteiros dedicados à leitura. Busque por um livro cuja temática te atraia. Quem sabe assim, não chegue seu tempo, nessa pandemia, de se jogar em histórias escritas?! 🙂

  6. Ruthia Portelinha 25/08/2020 em 09:41 - Responder

    Como a honra era levada a sério, noutros tempos, né? E como era lesada com minudências, haha.
    Sei por experiência que a prosa russa pode ser pesada, eu mesma me arrastei durante alguns trechos de Guerra e Paz que tem, no entanto, a desculpa de ter sido escrito noutros séculos. A história do país é feita de grandes enredos, acho que isso influenciou o ritmo e a inspiração dos autores russos.
    Nunca li O Botão de Puchkin e desconheço a obra do próprio protagonista, então o que me atraiu no seu post foi envolver a história nas suas lindas explorações pelo país. Um dia sigo os seus passos e também verei, com meus próprios olhos, a magnificência dos edifícios de São Petersburgo.
    Beijinhos querida Ana

    • Analuiza Carvalho 25/08/2020 em 09:50 - Responder

      Ruthia… eu mal posso esperar para ver a Rússia sob seu olhar sensível e poético! Será, para mim, uma viagem das mais interessantes! Um país que eu quero muito voltar! 🙂 bjokas

  7. Ana Carolina 25/08/2020 em 20:33 - Responder

    Adoro dicas de bons livros para ler, principalmente durante a pandemia. Confesso que ao ver o título imaginei que a leitura seria cansativa e vi que realmente foi ao ler seu relato, mas gostei de saber que valeu a pena

    • Analuiza Carvalho 26/08/2020 em 11:23 - Responder

      oi Ana… às vezes precisamos atravessar caminhos pedregosos para chegarmos em algum lugar que nos traga algo positivo! Assim foi para mim O Botão de Puchkin. 🙂

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