ESMA – Escola de Mecânica da Armada: uma história de TERROR na Argentina

Em 1976 a Argentina sofreu um golpe de estado. Começava ali uma das ditaduras mais duras e cruéis da América do Sul. Durou 7 anos, torturou e matou milhares de pessoas que se opunham ao novo regime. O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires não quer deixar essa história de terror cair no esquecimento.

Para tanto, criaram um museu que funciona em um dos edifícios da antiga ESMA – Escola de Mecânica da Armada, um dos centros de tortura e extermínio da ditadura argentina.

Nós visitamos a ESMA em uma manhã fria e o que eu descobri dessa história me deixou assustada. Foram anos sombrios, negros e muito cruéis na história recente do país.

ESMA – o início

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

O espaço onde funcionava as escolas que compunham a ESMA

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Durante a ditadura aqui funcionava a enfermaria

Em 1924 a marinha recebeu o edifício onde hoje funciona o Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires para ser um centro de treinamento de instrução militar.

Neste mesmo ano foi fundada a ESMA – Escola de Mecânica da Armada.

O terreno então foi ocupado por escolas variadas voltadas ao treinamento de matérias ligadas às forças armadas. Em 1976, quando se deu o golpe, instalou-se também um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio, um dos mais duros e emblemáticos da ditadura argentina.

Estima-se que foram instalados no país cerca de 340 campos de prisioneiros. Nos primeiros anos após o fim da ditadura, cerca de 9.000 pessoas que passaram por algum desses centros de tortura seguiam desaparecidas. Calcula-se que mais de 30.000 indivíduos foram assassinados entre 1976 e 1982.

O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

A ex-ESMA – Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Corredores da tortura

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Acervo formado essencialmente por explicações através de palavras, nuas e cruas

O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires reconstrói, através de palavras e vídeos, a ditadura militar argentina com intuito de que essa história jamais seja esquecida, para que nunca mais se repita.

Organiza e exibe as memórias dessa época porque é preciso lembrar a dor e ecoar a frase: NUNCA MAIS!

É justamente o edifício onde funcionava o centro clandestino de detenção, tortura e extermínio que hoje abriga a exposição que reconta as rotas e espaços cursados pela ditadura na Argentina.

São muitos os preâmbulos dessa história obscura e de maneira crua, o museu esquadrinha os seus recônditos, trazendo a luz as mais pútridas minúcias.

Não é fácil estar diante dessa realidade, que aconteceu ontem mesmo.

Há detalhes. Há explicações. Há desespero para todo lado que se olhe.

A exposição arrepia a alma, arrasa o coração, entristece o espírito.

Os torturadores seguem sendo levados a julgamento.

O mapa do terror

O sequestro e ingresso do prisioneiro no centro de detenção era o primeiro passo dado no mapa do terror. Logo em seguida, vinham as torturas no sótão para obtenção de informações.

Com os dados conseguidos nas sessões de tortura, uma lista como novos nomes era criada pela área de inteligência. Na sequência, o setor de operações planejava os próximos sequestros, formando assim, um ciclo infinito.

A reclusão era por tempo indeterminado e não raro a passagem do preso pela ESMA terminava no traslado, ou seja, sendo assassinado.

Começamos a percorrer aqueles espaços, corredores e salas, sentindo o pulsar daquele lugar, forte, ofegante, inundado de sofrimento e lágrimas, de desesperança e angustia.

Nossos passos eram lentos. A cada painel nos detínhamos em busca de saber o que tinha acontecido entre aquelas paredes amareladas, severas, infiltradas de uma dor inimaginável, sem saída, sem escapatória.

Os espaços de reclusão e tortura da ESMA

Sótão – primeiro lugar para onde os detentos eram levados ao chegar à ESMA

À medida que fomos explorando a ESMA passamos a conhecer os ambientes e suas funções no mapa do terror. Torrentes de informações sobre este passado tomam os espaços antes ocupados por seres humanos roubados em sua dignidade. Por diversas vezes neste caminhar, eu congelei e parei de respirar por um momento ou dois, para então seguir firmemente em frente.

Eu queria conhecer aquela história!

Sótão

Conhecido como setor 4, o sótão era o primeiro lugar para onde os detentos eram levados ao chegar à ESMA. Iniciavam-se então os interrogatórios e as flagelações de maneiras variadas e criativas, todas elas brutais, atrozes, hediondas.

O sótão também era o último lugar por onde passavam os prisoneiros antes do “traslado”, eufemismo para extermínio, assassinato.

Um ambiente parcamente iluminado com pouca ventilação.

Podíamos ouvir a sinfonia rimbombando forte, fantasmas e silhuetas ainda habitando aquele local pavoroso, repleto de sangue, suor  e gritos de desespero.

El Dorado

Neste ambiente atuavam os grupos de inteligência e operações que juntos arquitetavam as ações de sequestro e tortura, baseados nas informações obtidas no sótão.

… los días martes (terça-feira) eram muy particulares porque ahí em el Dorado, se alteraban profundamente porque tenían que definir quién iba a vivir y quién no iba a vivir em base a no sé que elucubraciones que hacián… Y um día martes veo tres camiones com lonas, com las lonas levantadas, como de culata y al día seguiente era miércules (quarta-feira)… todos los miércules se producian los traslados.”

                                                                       Lídia Cristina Vieyra, sequestrada entre 11 de Março e 25 de Julho de 1978, em depoimento no ano de 2010.

A principal forma de extermínio consistia em jogar os prisioneiros, vivos e adormecidos, no mar ou Rio da Prata, os chamados “vuelos de la muerte“.

Eu vivi várias vidas em algumas horas ao olhar mais uma vez a imensidão da maldade humana. Estilistas costurando uma história de poder e crueldade, sem limites, sem escrúpulos, sem medidas ou fronteiras.

Capucha

O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Capucha: espaço de reclusão

Espaço de reclusão onde os prisioneiros ficavam sobre colchonetes largados no chão e isolados em cubículos. Permaneciam algemados nos pés e nas mãos, com um capuz cobrindo a cabeça ou uma máscara sobre os olhos.

            “Capucha es un lugar donde se huele a muerte, estábamos no demasiado limpios, estábamos algunos heridos, el olor es horrible, se siente la muerte, no hay vida, es el silencio total...”.

                                            María Alicia Milia de Pirles, sequestrada em 28 de Maio de 1977 até 19 de Janeiro de 1979, em depoimento no ano de 2010

Ao entrar na Capucha seus nomes ficavam do lado de fora. Os prisioneiros a partir de então passavam a ser apenas números.

                           “La Capucha se me hacía insorpotable, tanto es así que um miércules de traslado pido a gritos que me traslade: “A mí!… A mí, 571!”. La Capucha había logrado su objetivo: ya no era Lisandro Raúl Cubas, era um numero.”

                                                                                        Lisando Raúl Cubas, sequestrado em 20/10/1976 até 19/01/1979, em depoimento no ano de 1984.

A esta altura a ESMA já tinha cansado minha alma que estava apertadamente entristecida, enevoada, meus sentidos embotados, meus olhos turvos com as lágrimas que teimavam em descer.

Quis fugir dali e ao mesmo tempo desejei ficar, saber mais, conhecer os esconderijos mais profundos imaginados e executados por poucos que atingiram penosamente, muitos.

Capuchita

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Capuchita

Local de reclusão, adaptado pela Armada, minúsculo, situado na parte alta da casa:

                “(…) simplesmente tenía condiciones más duras que otras porque no había aire, era muy chico, hacía mucho calor em verano y frío em invierno, era todo muy amontonado y fundamentalmente porque estábamos al lado del lugar donde torturaban.”

                                                                  Lila Pastoriza sequestrada em 15 de Junho de 1977 até 25 de Outubro de 1978, em depoimento no ano de 2010.

É sempre inverno entre as paredes da ESMA. O ar daquele lugar é aterrador, pesado. Estávamos a sós, Léo e eu. Ninguém mais visitava a exposição naquela manhã e a energia dos que por ali passaram arraigava-se secretamente em meu espírito causando fissuras que não percebi de imediato.

Os ecos do passado, entrecortados pelo silêncio corpulento, fechavam-se sobre nós, muitas vezes nos sufocando.

As mães e avós de Mayo

O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

A face do sofrimento

O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires atribui nome e cara ao martírio, formata e configura as torturas praticadas e sofridas. Não é uma história sem rosto e ouvir as vozes e ver o semblante dos sobreviventes e desaparecidos torna o horror mais intenso, real, verdadeiro.

É passado. É presente, pois ainda podemos sentir a dor.

Falta de higiene, trabalhos forçados com intuito de mudar ideologias e valores, reclusão com futuro incerto, choques elétricos, pancadas, ratos, telefonemas para enganar as famílias tentando impedir as buscas por seus entes amados…

Foram muitas as torturas físicas e psicológicas praticadas pela ditadura argentina.

As incansáveis mães e avós de mayo seguem pedindo contas do destino de seus parentes:

Nem vivo, nem morto: desaparecidos! Vivos ou mortos, queremos saber o que aconteceu com eles”.

Conheça o projeto Abuelas de Plaza de Mayo:

+ Las Abuelas

A visita

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires

A ESMA tem sim energia densa. Não poderia ser diferente visto tudo o que aconteceu naquele edifício.

Suas paredes descascadas, testemunhas de atrocidades, carregam dor, lágrimas e sofrimentos terríveis. O tormento ali tem muitas caras, muitas faces de agonia, o que torna tudo mais duro, árduo, febril à medida que avançamos pelos corredores entendendo toda a logística do terror.

É um lugar perturbador. Comovente.

Para mim, foi uma visita muito difícil e eu deixei a ESMA cansada, esgotada.

Embora o Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires seja simples, mal usando recursos visuais, valendo-se das palavras e explicações escritas em quadros inseridos nos cenários reais, é um caminho pedregoso este que o museu nos leva.

São estradas umbrosas e tenebrosas as que a ditadura argentina criou e o espaço reconta.

Ao voltar ao ar livre engoli largas golfadas de ar e desejei ardentemente que esta história absurda atravesse os anos, os séculos para que as gerações futuras não repitam os fatos ocorridos na ESMA.

Nunca mais!

Informações adicionais

Entrada gratuita.

Para quem gosta de conhecer todos os detalhes, gastará pelo menos um turno na visita.

Endereço:

Av. del Libertador 8151

Horários:

De quinta-feira a domingo das 12:00 às 17:00.

Não é permitida a entrada de crianças menores de 12 anos. Entre 12 e 15 anos é necessário que estejam acompanhados dos pais.

Gostaria de conhecer outro campo de extermínio?! Então clica no link bem aqui abaixo!Cais da Ilha de Genebra

+ Dachau, Alemanha

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O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires reconstrói, através de palavras e vídeos, a ditadura militar argentina com intuito de que essa história jamais seja esquecida, para que nunca mais se repita. Organiza e exibe as memórias dessa época porque é preciso lembrar a dor e ecoar a frase: NUNCA MAIS! #espiandoepelomundo #viajantesempressa #buenosaires #argentina #esma #viajar              O Espaço Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires reconstrói, através de palavras e vídeos, a ditadura militar argentina com intuito de que essa história jamais seja esquecida, para que nunca mais se repita. Organiza e exibe as memórias dessa época porque é preciso lembrar a dor e ecoar a frase: NUNCA MAIS! #espiandoepelomundo #viajantesempressa #buenosaires #argentina #esma #viajar

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ESMA – Memória e Direitos Humanos de Buenos Aires, Argentina

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Cais da Ilha de Genebra

 

2 Comments

  1. Klécia Cassemiro 13/10/2017 em 22:41 - Responder

    Ana,
    eu li bastante sobre a ditadura argentina, e me emocionei com o monumento às mães de Mayo na Plaza de Mayo. Ditaduras mexem muito comigo – essa vez no Chile também entrei mais fundo na historia da ditadura chilena e foi da mesma forma duro. Não sei se teria coragem de visitar a ESMA. Eu tenho uma enorme curiosidade, mas sei que a energia será muito pesada para o que consigo aguentar. Senti um pouco da sua angustia aqui no post, e muito da angustia de todos com as fotos – muito emocionante. Tudo. Esses lugares são importantes demais pra gente não esquecer, nunca. Para não permitir que aconteça de novo, com ninguém.

    • Analuiza Carvalho 16/10/2017 em 17:45 - Responder

      Eu sempre acho as visitas às crueldades humanas muito duras. É difícil ver até onde a maldade consegue ir. Saber que tudo isso é real é terrível. Contudo, é muito fácil esquecermos, deixarmos tudo isso perdidos na poeira do tempo, por isso manter vivos estes lugares é tão importante! bj

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