Madrugada SUJA

Madrugada Suja de Miguel Souza Tavares começa dando um nó em nosso estômago.

                                                                                                “Às vezes, quando estava quase a fechar os olhos para dormir,                                                                                                           Voltava imagens daquela noite e a mesma dúvida de sempre:teria sido real ou pesadelo?”

Foi difícil avançar pelas primeiras páginas. Foi preciso ser resistente para não sucumbir a agonia. Precisei ser determinada para ir em frente, não desistir.

Madrugada Suja

Madruga Suja começa forte. A primeira cena dessa história portuguesa é triste e desesperadora. Angustiante. Não é fácil passar por ela e consequentemente não saímos incólume dela. Somos testemunhas oculares daquela tragédia, ato de cinismo e crueldade, eu diria, mas nada podemos fazer.

A história de Miguel Souza Tavares segue seu rumo, voltando ao passado ainda mais distante e nos trazendo de volta ao presente. A tragédia, ora está em primeiro plano, ora desaparece de nossas memórias para dar lugar à outras memórias.

Contudo, não nos enganemos: o passado só vira passado realmente quando todos os fatos lá ocorridos são devidamente resolvidos. Caso contrário, ele volta para nos assombrar. Foi exatamente isso que aconteceu com Filipe, o personagem que nos conduz por Madrugada Suja.

Por conta de uma circunstância de trabalho, uma firme decisão e uma ironia do destino, aquela Madrugada Suja, volta para cobrar a dívida de Filipe.

A História

O acidente em Évora, linda cidade portuguesa que encantou minha alma, me deixou lindas e saborosas lembranças em meus poucos dias por lá, é o marco zero desta história, cujo personagem principal, o Filipe, luta com gana ao longo de sua vida para manter os escrúpulos, apesar da covardia e omissão na juventude.

Madrugada Suja

O entardecer em Évora: depois da noite, vem a madrugada. Todas as madrugadas são sujas. Só as manhãs são limpas. R.

Entretanto, aquela suja, imunda madrugada não é a força motora, o coração que nos guia. Filipe é o último descendente de uma minúscula aldeia alentejana chamada Madronhais da Serra, lugar que causa nele controversos sentimentos.

Madronhais é cenário de boa parte de Madrugada Suja e ali está o pedaço maior da graça e da beleza deste livro. Suas lembranças nos levam a um tempo que já não existe naquela aldeia abandona por todos, até por seus fantasmas.

A história de Portugal, desde o início da ditadura salazarista, e alguns de seus preâmbulos estão bem ali, diante de nossos narizes e olhos. Outra perspectiva sobre fatos marcantes do país. Aqui, podemos olhar de dentro esta parte da história portuguesa.

Eu esperava uma conclusão mais intensa desse acertar de contas da vida, entretanto, talvez a própria vida tenha amornado os personagens, afinal.

Um pouquinho de Portugal sob meu olhar:

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By | 2017-07-12T15:04:16+00:00 14/07/2017|Categories: Em Portugal|Tags: |2 Comments

2 Comments

  1. Klécia Cassemiro 16/07/2017 at 17:51 - Reply

    Estranho quando um livro que nos dá um soco no estômago se despede com uma solução fria. Mas acho que você resumiu bem: as vezes, é mesmo a vida, que de tantas voltas, nos desconcerta e tira o foco de nossos mais profundos sonhos e mais intensas revoltas. A vida que costura e remenda, nos entrega dias de sol depois de madrugadas sujas, vez ou outra. A gente que tambem nem vê, até que chegue uma noite de tempestade e a gente se lamente que nao aproveitou bem o dia de sol enquanto já se aproxima mais uma madrugada – possivelmente suja -. Filosofei demais? Acho que tardes de domingo chuvosas me deixam assim 🙂
    Beijos, Aninha!

    • Analuiza Carvalho 19/07/2017 at 13:51 - Reply

      A única coisa que nos resta é respeitar os remendos e aceitar o caminhar dos personagens… não sem certa indignação, mas fazer o que se somos meros observadores de suas vidas e decisões?!

Me diga alguma coisa!