Las leyes de la frontera de Javier Cercas

Girona, verão de 1978. Havia mais ou menos três anos que o ditador Franco (1892 – 1975) estava morto, mas a Espanha ainda existia e vivia sob os efeitos dos ainda não completamente dissipados ventos franquistas. Esse é o cenário e a atmosfera de Las leyes de la frontera, livro de Javier Cercas.

Uma narrativa potente, intensa, forte, interessante. Apaixonante!

A história gira em torno de três personagens principais e suas relações ao longo de algumas décadas: Ignácio Cañas, Tere e Antonio Gamallo.

Os três personagens principais

Cañas, apelidado de Gafitas, é o mais interessante e simplório dos personagens de Las leyes de la frontera. Paradoxalmente, também o mais complexo e irritante deles. Por isso mesmo, ao menos para mim, se tornou o mais atraente dos três.

Tere se mostrou para mim uma incógnita. Até o fim, um mistério que, por mais que me esforçasse, nunca consegui desvendar. O que movia aquela menina? E depois, quando se tornou mulher? Quais os sentimentos por trás das ações?

Antonio Gamallo, el Zarco, o fio condutor, o mito, a ligação entre todos eles. Apesar de ter se tornado uma lenda na Espanha, ele não era, no final e afinal, nada demais. Não poderia ser mais normal dentro de sua anormalidade, de sua delinquência. Uma figura tão óbvia quanto possível para um ser humano.

Las leyes de la frontera de Javier Cercas #literatura

Cañas (Gafitas), Tere e Gamallo (El Zarco) – os personagens principais de Las leyes de la frontera

A Espanha e nós

Eu comprei esse livro no ano de 2014, em Girona. Era nossa segunda visita à Espanha, tendo a primeira acontecido em 2011 (Madri, Toledo, Sevilla, Córdoba, Granada e Málaga). Dessa vez rodamos pela Cataluña e Valência.

Ainda voltamos à Espanha uma terceira vez, em 2019, para estar em Madri novamente, além de Segovia, Ávila e San Lorenzo de El Escorial.

Cada viagem foi única e marcante à sua maneira.

O livro foi indicação do dono de uma pequena livraria na rua principal da bela Girona, que nos proporcionou, além de ótimas sugestões literárias, uma conversa maravilhosa sobre livros, mundo, cultura e o separatismo catalão.

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Em Girona, Cataluña, Espanha – 2014

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A cidade de Ávila, Espanha – 2019

Demorou um tempo, mas enfim, aconteceu

Desde então, Las leyes de la frontera habita a minha estante.

Contudo, somente agora, em 2020, tive tempo, vontade e ânimo para de me enveredar pela Girona de tempos que não conheci e que não me lembraram em nada aquela cidade pacata e simpática que eu visitei naquele já longínquo 2014.

Só para constar: achei um destino de viagem encantador, onde vivemos experiências marcantes.

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A cidade de Girona, Cataluña, Espanha – 2014

Levei mais ou menos 4 capítulos para me envolver com a história de Cañas, Tere e el Zarco. Inclusive, tive um hiato de mais ou menos 3 meses, em que o abandonei, retomando a leitura apenas nos últimos dias. Isso raramente acontece quando pego um livro para ler.

Não sei se a culpa foi do cansaço mental e físico que me acometeu nessas últimas semanas por conta do isolamento social recomendado em tempos de pandemia do Covid-19 ou por qualquer outra razão que não mereceu minha reflexão.

Fato é que, depois que retomei a leitura, o envolvimento foi imediato e então, já não a conseguia largar. Devorei cada página, cada diálogo, cada intenção, ação. Senti raiva, pena, dor, irritação, curiosidade… criei expectativas! Torci, me decepcionei.

Amo os livros que colocam a minhas emoções numa montanha russa e me desafiam a todo instante.

A história

Havia dois mundos em Girona. Eventualmente eles até se cruzavam, mas mal se percebiam. Enquanto Ignácio Cañas, menino de classe média, vivia do lado de cá do rio, Antonio Gamallo, garoto pobre, estava separado dele por apenas duzentos metros, do lado de lá. Não podiam viver de modo mais distinto.

E assim o foi durante toda a existência dos dois.

Cañas tinha apenas 16 anos quando conheceu el Zarco e seu bando. Ele, imediatamente se sentiu atraído por aquele jovem – “había admirado su serenidade, su valentia, su audácia (…) lo envidiaba (…). O menino estava com problemas na escola, que acabaram se estendendo para suas relações familiares.

Uma raiva intensa crescia dentro dele. Impotência. Desamparo.

Em companhia de El Zarco estava Tere, linda, segura, determinada, indiferente ao todos a sua volta. Fazia o que lhe dava na telha. Seria ela namorada dele? “¿Tere era la chica del Zarco?” Para completar a atração de Cañas por aquele bando, aconteceu o episódio – inesquecível – nos lavabos dos Recreativos Vilaró.

Esse é mais ou menos o início dessa história que Javier Cercas nos conta em Las leyes de la frontera.

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Las leyes de la frontera de Javier Cercas

A gangue

Gafitas então, entrou para o bando, que fazia de tudo um pouco: roubos, drogas, furtos, prostituição… Polícia, escolhas, arrependimentos, erros, acertos, medos… Uma história cheia de muita humanidade, ágil, melancólica.

Quase toda a narrativa é feita por Cañas, em primeira pessoa, por conta de uma entrevista, para um jornalista que escreverá um livro sobre El Zarco. Ídolo de toda uma geração, durante os anos de transição em que a Espanha abandonava lentamente os resquícios da ditadura, voltando a viver sob a democracia, muitas matérias, filmes e livros já haviam sido escritos sobre ele.

Entretanto, nenhum, por um membro de sua antiga gangue.

O livro cobre a vida dos três personagens além da adolescência, chegando até a idade adulta: o que se fez de cada vida, de cada rumo, trajetórias, escolhas, resultados e consequências. Fatos que demonstram sentidos e sentimentos. Emoções, paixões, ilusões e muito de realidade.

Gafitas, o anti-heroi

Pode parecer, nos primeiros momentos de Las leyes de la frontera que el Zarco é o anti-heroi, o personagem principal, o dono da história, mas esse é um engano. Esses títulos pertencem a Gafitas. Ele é o causador dos meus mais variados sentimentos: pena, empatia, raiva, admiração, desprezo e tantos e tantos outros.

Ele me colocou numa gangorra emocional. Eu o detestei por isso.

Contudo, ele foi sempre tão franco, que no final e afinal, senti pena. Um prisioneiro de si mesmo. Um tolo como tantos de nós. Existir não é fácil e apesar de todos os percalços, de algum modo, ele não só sobreviveu, como aceitou a vida como ela é.

Aceitou a ele mesmo, o que ele podia ser nessa vida, com todas as suas dores e fraquezas. Sua estrada foi muito longa! Dura também!

Javier Cercas nesse livro é extraordinário. Nos fatos, as emoções. Nas emoções, os fatos. O fim de tudo foi merecedor de cada uma das páginas de Las leyes de la frontera. Fiquei extremamente satisfeita de ter me rendido a essa história.

Em tempo: o livro que eu tenho está em espanhol, mas já tem ele traduzido para o português, com o mesmo título: As leis da fronteira. Só não sei se em nosso idioma a narrativa forte e intensa se manteve.

Las leyes de la Frontera

Autora: Javier Cercas (Espanha)

Editora: Contemporánea

Números de Páginas: 382

FIM

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Cais da Ilha de Genebra

By |2020-12-30T14:42:05+00:0030/12/2020|Categories: O Mundo nos Livros|Tags: , , |6 Comentários

6 Comments

  1. Roberto Caravieri 22/01/2021 em 04:43 - Responder

    Amei as fotos! Fiquei super curioso para ler o livro Las Leyes de la frontera! Um abraço e obrigado pela dica!

  2. Mariana 22/01/2021 em 11:13 - Responder

    Fiquei bastante curiosa sobre a história de Gafitas! Confesso que não me lembro de haver lido livro algum com a Cataluña como plano de fundo… E não melhor do que alguém que esteve lá e buscou recomendações para consertar essa falha! “Las leyes de la frontera” na lista de leituras para 2021 já <3

    • Analuiza Carvalho 22/02/2021 em 12:02 - Responder

      Leia Mariana e faça essa viagem com Gafitas! E se prepare para um carrossel de emoções contraditórias! bjus

  3. Suriàn 01/02/2021 em 14:04 - Responder

    Que demais os links que fizeste do livro Las Leyes de la frontera com Girona. Fiquei com vontade de ler o livro agora!

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