La LLORONA de Marcela SERRANO

Eu gosto muito da narrativa da escritora chilena Marcela Serrano. Ela é sensível, simples, objetiva e muito potente. Sabendo disso, Leo, meu mui amado marido, me deu de presente o livro La Llorona cerca de 2 anos atrás.

Nesses tempos estranhos que estamos vivendo, com um vírus tomando conta do mundo e limitando nossas vidas, eu resolvi enfim, me envolver com mais uma das tocantes histórias de Serrano.

Uma personagem feminina.

La Llorona de Marcela Serrano

“Você a matou.

Foi o que disseram no vilarejo. E me chamaram de Chorona.

Assim começa o livro La Llorona. De imediato somos sugados para a vida e os sentimentos, brutalmente honestos da personagem principal La Llorona. Sua história é triste. O que acontece com ela é um pesadelo. Como pode ser possível?!

A menina mora num pequeno vilarejo no Chile onde a vida tem ritmo próprio, a realidade tem seus próprios fundamentos, onde a sabedoria encontra eco e os pobres são esquecidos, ignorados. Sua alma, entretanto, era bem mais larga que aquele vilarejo.

Ou será que, no final e afinal, não era?!

Onde está minha filha?

La Llorona – durante toda a narrativa, nós a conhecemos apenas como aquela que chora, com Serrano colocando em evidência seu pranto, sua força, sua luta. Ela deu à luz a uma menina. Estavam ambas muito bem. Sua filha tinha nascido saudável e ela estava feliz, esperando a hora de ir para casa.

Então, assim, sem mais e nem menos ela recebeu a notícia: sua filha morreu! A dor foi imediata! O pranto foi farto! A confusão foi imensa!

La Llorona pediu para ver o corpo da filha, queria enterrar a menina, chorar por sua morte. Não tem corpo, foi informada. Foi cremada, disseram. Você a matou!

“Você a matou.

Foi o que disseram no vilarejo. E me chamaram de Chorona.

O que aconteceu?!

Quem relata essa história, dolorosa, muito dolorosa, com todos os seus duros desdobramentos é a própria chorona. Ela nos conta de seu sofrimento, de sua agonia, mas também de suas inúmeras alegrias e conquistas. Fala de batalhas, de vitórias e de derrotas.

Ela nos oferta sua essência.

A menina descreve a forma como ela via o mundo, como se relacionava com ele, e com os inúmeros personagens que passaram por sua vida, sempre de forma tão franca, objetiva, direta e por isso mesmo tão intensamente poética! De menina, vai virando mulher!

O universo feminino de Serrano é sempre apaixonante, arrebatador!

La Llorona nos deixa conhecer sua infância, seus pais, seus sonhos mais íntimos. Ela nos conta de seus irmãos, de seu marido e de sua filha perdida. Ah! Fala também do Padre.

Eu vejo as lágrimas em seus olhos, mas não consigo enxugá-las. Sinto o vazio em seu peito, mas não posso aninhá-la em meus braços. Através de tudo isso, entretanto vejo crescendo intensamente a determinação em sua alma. Ela não vai se entregar. Não vai cair sem lutar.

“Tamanho esforço é ser adulto.”

Ao expor sua trajetória de vida La Llorona o faz desprovida de emoções o que a torna tão emocionante. Tudo é tão espontâneo e digno naquela menina, naquela mulher! Foi muito fácil para mim gostar dela, me envolver com sua história e principalmente torcer por ela e vibrar com suas conquistas.

Um amor simples e orgânico de existir!

Fascinante!

“Você me faz muito feliz. Quatro palavras. Dezenove letra. A imensidão.”

Eu queria reter dentro de mim suas palavas, sempre tão repletas de significados, mas a história de La Llorona seguia acelerada, apressada, havia muito a ser contado, dito, encontrado, mais rápida do que eu gostaria, sem preâmbulos ou julgamentos, direta, crua, nua.

Ao mesmo tempo era quase apenas um sussurro. Havia uma lentidão ali, uma cadência que contrapunha o ritmo agitado pelos acontecimentos.

Interferi. Eu diminui o compasso e voltei as páginas algumas vezes, li e reli. Era fácil de entender aquela menina. Era difícil entender aquela menina. Que existência tão fascinante a dela! Não a trivial e cotidiana, tão ordinária quanto tantas e tantas outras, apesar de sua tragédia pessoal.

Sim, aquela sua existência interna tão pujante, vigorosa, tão atraente, tão intensa! Independente, cheia de poder! Ela era a dona de si mesma! Enfrentava com muito talento as avarezas do mundo sem receios ou ressentimentos. Quando perdeu o contato de si mesma, seu mundo interno seguiu vivo.

Ela afirmava que não estava em guerra e que acreditava que ser mulher era muito mais divertido do que ser homem, apesar das muitas dores femininas. Afirmava que “nós temos filhos e ilusões, os homens sonham pouco.“.

Vidas que mudam

A vida, contudo não está para brincadeiras! É irônica. Cruel também!

La Llorona sente no fundo de sua alma que sua filha está viva. Alguns acham que ela enlouqueceu, outros que ela devia deixar pra lá e seguir com sua vida. Certa do que sente, ela vai em busca de saber o que aconteceu com sua bebê. Com uma brutal paciência ela se planta na porta do hospital: observa e espera.

A história então começa a vir à tona e ela é tétrica!

A partir daí ela conhece outras mulheres, outros filhos perdidos, dores como a sua, diferentes da sua – todas femininas; Ela luta intensamente, se reconhece e desconhece, ajuda, é ajudada. Se muda para Santiago, capital do Chile e tudo muda vertiginosamente.

Olívia, Elvira… mulheres que desempenharam papeis fundamentais na vida de La Llorona. Mulheres amparando mulheres, ensinando, estabelecendo laços, amizades, compreensão. A força da vida!

Seu marido nisso tudo?! Não gostou! Não entendeu! A filha deles estava perdida. Ponto final. O que importava para ele era seu próprio mundo: abalado, modificado, irreconhecível enquanto sua mulher lutava uma guerra que ele não queria saber, não podia alcançar o sentido.

A busca

Quando La Llorona começou a busca por sua filha estranhamente morta ou misteriosamente perdida, ela não tinha a menor noção dos rumos que tudo aquilo tomaria. Não havia a mínima suspeita dos resultados e principalmente do tamanho do que tinha acontecido com sua bebê.

Um horror grande, inimaginável, largo, assustador…

A coisa toda cresceu, o movimento encontrou eco porque a sua dor não era somente sua, era compartilhada por mais mulheres do que ela podia imaginar, mesmo por aquelas que tiveram a sorte de não sentir na própria pele tamanho padecimento.

A dor

Apesar de seu mundo interno ser forte, confiante e seguro, a dor excruciante finalmente a envergou e por fim a quebrou. Foi duro ver nossa menina de joelhos, destruída!

A trama que se descobriu foi de puro horror. O poder utilizado de modo egocêntrico, descuidado, cruel, desumano. O mal que os ricos, muito ricos causaram foi imensurável, inimaginável. Bandidos sim. Criminosos sim. Marginais perversos disfarçados de bons cidadãos.

Uma trama sórdida e suja.

Em Santiago do Chile

La Llorona de Marcela Serrano

Pelas ruas de Santiago do Chile

La Llorona de Marcela Serrano

Em Santiago, capital do Chile

Eu descobri Marcela Serrano quando estava planejando minha primeira viagem para o Chile, onde visitamos Santiago e arredores. Tenho por hábito pesquisar por escritores locais que me contem um pouco sobre o lugar que estou prestes a visitar.

Gostei de imediato de sua escrita!

Depois disso, de ler Serrano pela primeira vez, eu já visitei Santiago do Chile e outros lugares no país, inúmeras outras vezes, por variados motivos: corrida de rua, futebol, turismo. A última delas foi bem antes de conhecer La Llorona.

Sempre, invariavelmente, desde minha primeira viagem ao país, eu caminho pelas ruas da capital, pensando nas inúmeras lutas, dores e dissabores que as pessoas daquela terra já viveram, sob aquela atmosfera tão aparentemente plácida e tranquila.

Seguramente isso é influência dos muitos livros que eu já li, ambientados aí, sempre muito fortes.

La Llorona achou Santiago “Majestosa. Rutilante. Suntuosa.”. De todas as capitais sul americanas que eu conheço: Lima, Bogotá, Buenos Aires e Montevidéu, Santiago me pareceu sempre a mais organizada, tranquila, calma.

Foi interessante perceber o contraste entre as percepções de nossa chorona e as minhas. Foi curioso voltar à cidade chilena pelos olhos e experiência da Chorona.

Conclusão

Marcela Serrano me comoveu do início ao fim. Como sempre. Ela explora o feminino com muita densidade, conhecimento, vigor e extrema sensibilidade. Uma história tão emocionante quanto profunda. Tão irreal quanto real! Quantas choronas existem no mundo inteiro?!

“Construir a vida é mais difícil que morrer”

La Llorona

Autora: Marcela Serrano (Chile)

Editora: Primavera

Números de Páginas: 152

FIM

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La Llorona de Marcela Serrano - sensível e potente. Uma história de dor e cura. De luta e de sofrimento.              La Llorona de Marcela Serrano - sensível e potente. Uma história de dor e cura. De luta e de sofrimento.

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La Llorona de Marcela Serrano

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By |2020-07-27T15:42:17+00:0027/07/2020|Categories: O Mundo nos Livros|Tags: , , |2 Comentários

2 Comments

  1. Luciane 04/08/2020 em 15:24 - Responder

    Eu adoro os livros da Marcela Serrano, mas ainda não li o La Llorona, adorei a sua resenha e fiquei ainda mais com vontade de ler. Acabei de comprar e darei inicio a minha leitura assim que chegar. Valeu a dica!

    • Analuiza Carvalho 04/08/2020 em 16:51 - Responder

      oi Luciane… que massa! Espero que você goste. Também gosto dos livros de Serrano e La llorona é sensível e comovente. 🙂

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