FIRENZE e eu: um ENCONTRO a dois

Em uma manhã gelada no outono florentino, Léo correu a  Maratona de Firenze, enquanto eu perambulava, flanava por Florença, sem rumo, sem destino, sem objetivo além do de caminhar e olhar e sentir e perceber. Foi um encontro a dois: Firenze e eu.

O início de minha jornada de encontro com Firenze

Acordamos cedo e eu desci sozinha para tomar café da manhã. Sabíamos que pelas próximas 4 horas eu estaria por minha conta. Isso me preocupou. Isso preocupou Léo.

Hospedagem em Florença:

Best Western Hotel

Eu sou uma andarilha distraída. Eu vou caminhando atraída por alguma coisa e me esqueço de olhar para trás, para o lado. Esqueço-me de mim e sigo dispersa, seduzida ou então imersa em meu mundo particular de devaneios e sonhos.

Somado a isso, eu sou uma pessoa que, ao ser criada pelo Universo, pularam a parte em que colocam GPS na gente. Eu sou um exemplar de ser humano com erro de fabricação: não sei ler mapa, não tenho nenhum senso de direção, sou desorientada e vivo perdida.

Mas Florença me acolheu, foi gentil e amigável comigo. Entendemo-nos muito bem e eu passei quatro horas me deliciando por suas retas e curvas, por sua atmosfera, por sua beleza, por seu silêncio e barulho em momentos alternados.

Perdi-me entre corredores, turistas, becos e vielas. Mas achei-me também, em meio a sonhos, devaneios, ao prazer de me permitir não ter orientação.

Vi a cidade despertar, mudar de luz e me senti feliz, eufórica até e quando dei por mim, minha viagem particular tinha acabado. A corrida chegava ao fim e era hora de me encontrar com o meu campeão e voltar ao ritmo normal de nossa viagem.

O começo da manhã

Firenze e eu

Maratonistas fazendo a festa

Fui com Léo até a linha de largada da maratona. Sou meia-maratonista (nunca tive a coragem necessária para correr uma maratona) e adoro as corridas de rua, seja como corredora ou como espectadora: é uma grande festa, alegre e colorida.

Eu sempre me emociono observando a força física e mental de quem corre e sempre me surpreendo com minha própria força ao cruzar a linha de chegada de uma meia-maratona: sempre choro.

Em Florença a festa foi linda. Muitos corredores cheios de expectativa, objetivos, sorriso no rosto, enfrentando o frio, música tocando.

Fomos do hotel para a linha de largada margeando o belo rio Arno. Florença estava com uma cor maravilhosa de dia novo. Eu estava ainda meio sonolenta e fui despertando aos poucos, junto com a cidade.

Reciclagem e sobrevivência

Despedi-me de Léo, desejando de todo coração que ele fizesse uma prova excelente e ele fez. Fiquei por ali, observando as pessoas, esperando a largada.

Uma coisa que nunca tinha visto antes me chamou a atenção: em corridas cujas temperaturas estão frias os corredores costumam usar agasalhos baratos e os descartam logo que a prova se inicia por sabem que o corpo vai aquecer e eles passam a ser desnecessários e incômodos.

Imigrantes africanos já sabendo disso ficam nas bordas dos currais onde estão os corredores e recolhem estes agasalhos. Eles conseguem recolher sacos e mais sacos de abrigos.

Soube depois que isso é um verdadeiro comércio no país, pois estes casacos recolhidos serão vendidos e revendidos a outros corredores, por um preço baixo, uma vez que serão usados por pouquíssimo tempo. Reciclagem e sobrevivência.

1 minuto de silêncio por Paris

Firenze e eu

Minuto de silêncio

Pouco antes da largada foi feito 1´de silêncio pelas vítimas do atentado de Paris algumas semanas antes. Havia certa apreensão de que alguma coisa acontecesse ali em Florença que estava em estado de alerta.

Confesso que até a maratona começar eu fiquei preocupada, mas depois em meu passeio solitário eu me olvidei completamente de qualquer ameaça.

Foi um momento bonito em que o barulho intenso cessou imediatamente e as pessoas mal respiravam. Então soou a buzina e a maratona finalmente começou e meu encontro particular com Florença também.

Sorvendo Florença

Firenze e eu

Começando a me perder pelas ruas de Florença: Via Tripoli

Firenze e eu

Biblioteca Nacional de Florença

Como eu tinha tempo e não tinha objetivo algum, apenas coloquei um pé após o outro e me deixei absorver pela cidade. Eu queria sorve-la em pequenos goles, ingerir tudo o que ela podia me oferecer naquele curto espaço de tempo. Queria gravar em minha alma, sua memória, contada através de sua geografia, seus edifícios.

Firenze e eu: um encontro a dois

Firenze e eu

Vielas e edifícios descascados: beleza imperfeita

Firenze e eu

Arquitetura ocre da cidade

Firenze e eu

A rua e seus habitantes

Firenze e eu

As curvas de Florença

Entrei e sai de muitas ruas, becos e vielas. Preferi as ruas vazias e secundárias para absorver a cidade de muitos ângulos, mas não deixei de lado seus pontos principais: Ponte Vecchio, Piazza della Signoria, Biblioteca Central, Uffizi e tantos outros que serviram para meu deleite e para me dar um senso mínimo de orientação.

Florença é fácil de se locomover e de se entender, até para uma pessoa tão desorientada como eu, pois há o rio Arno como referência. Quando não tinha ideia de onde estava, ia para as margens do Arno e começava tudo de novo.

Embora a arquitetura ocre seja antiga, de alguma forma eles avançaram no tempo.

As luzes desta senhora vivida que não tem a menor vergonha de suas rugas e cicatrizes, vão mudando perceptivelmente ao longo do dia e conferem a ela uma atmosfera distinta à medida que as badaladas do relógio vão soando. Aliás, este é um dos sons mais marcantes de Firenze.

A beleza imperfeita de Florença

Firenze e eu

Ruas estreitas e sem calçada

A cidade é incontestavelmente linda. Possui uma beleza natural, melhorada pelo homem, criada para ser assim, primorosa, construída e aperfeiçoada ao longo de muitos e muitos séculos.

Embora indiscutivelmente Florença tenha os dois pés fincados no passado, pois é impossível ignorar os traços muito bem conservados da Idade Média e Renascença de muitas maneiras ela vive no presente, sua atmosfera é atual e moderna.

Apesar de a beleza de Firenze ser uma unanimidade, não a achei uma beldade nos moldes óbvios de perfeição; ao contrário disso, acredito que seu encanto esteja justamente em suas imperfeições: paredes cheias de marcas do tempo, pinturas muitas vezes descascando conferindo certo ar de descaso de quem diz: posso ser linda sem muita maquiagem ou cuidados excessivos.

Ruas com buracos e cheiro forte de xixi. Ruas cheias de mistério, meio escuras, sombrias, silenciosas. Ruas que escondem histórias, cenas, vestígios de muitos tempos. Se respirarmos fundo ouvimos memórias, sussurros, lendas e romances. Sangue e tragédias com certeza.

Florença é gasta, nitidamente usada. Não é menina nova, ao contrário tem uma biografia vasta, intensa. Seus edifícios foram testemunhas e protagonistas, atores e espectadores de muitas ações: covardes e generosas.

Muitos artistas absurdamente criativos deixaram sua energia nessa cidade que respira a Dante, o maior poeta de todos, Michelangelo, Rafael, Botticelli, Giotto, Vasari…

Não hesitei diante de nenhuma rua, praça ou viela. Senti-me segura em Florença. Sabia que ela cuidaria de mim e cuidou. Poderia ficar mais quatro horas perdida em seus braços, sem me dar conta da passagem do tempo.

O mapa e eu

Firenze e eu

Belíssima

Firenze e eu

Tentei bravamente ler o mapa da cidade

Em determinado instante, na Piazza della Republica me sentindo completamente à vontade, decidi que seria capaz de me guiar pelo mapa que tinha na bolsa.

Abri cheia de confiança. Virei para um lado e para o outro, coloquei de ponta cabeça, busquei ruas e direções. Fui obrigada, muito frustrada, a guarda-lo: melhor seguir o instinto e perguntar. Afinal, quem tem boca vai a Roma e assim fui onde queria ir.

Em diversos momentos parei para ver a festa dos corredores. A cidade ia abrindo e fechando suas ruas principais para dar passagens a esses heróis da resistência e eu vibrei junto com a animadíssima torcida italiana por todos os maratonistas e pelo meu maratonista preferido.

Almocei um sanduíche, em pé, na calçada, porque não queria perder um único momento sequer daquela manhã.

Vi maratonistas caindo, desmaiando, sendo apoiados por amigos, incentivados por desconhecidos. Vi maratonistas mancando, com o sofrimento marcando cada nervo de seu corpo, mas com a determinação de quem vai cruzar a linha de chagada. Vi corpos e mentes levados ao extremo. Vi suor, lágrimas e sorrisos. Acredito que todos aqueles que passem da linha de largada de uma maratona, são campeões, mesmo que não concluam a prova.

O caminho de volta

Firenze e eu

Ele, a medalha e Santa Croce

Léo e eu nos encontramos novamente na Chiesa di Santa Croce, perto de 14 horas, na dispersão: ele cansado e satisfeito com mais uma maratona lindamente concluída e eu feliz da vida com minhas 4 horas de solidão desbravando a capital da Toscana.

Veja como é o interior de Santa Croche:

+ Basilica di Santa Croche

Para conseguir chegar a Santa Croce tive que perguntar qual caminho deveria seguir, porque estava perdida. Os italianos são simpáticos e sempre que precisei me ajudaram com gentileza.

Engraçado que depois de certo tempo eu perguntava em português e eles me respondiam em italiano e a comunicação, ainda que básica, fluía tranquilamente.

Assim, iniciei o caminho de volta para encontrar com Léo, me dedicando a não desconcentrar e me perder pelas irresistíveis curvas de Florença. Esperei por ele sentada nas escadarias da igreja, aos pés de Dante, perdida no movimento de pessoas.

Depois das felicitações, fomos caminhando para o hotel para que Léo tomasse banho e no caminho ele foi me contando sobre a maratona, o que viu e o que sentiu. Depois como já era meio da tarde, fomos para il Mercato Centrale di Firenze para um almojanta.

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Explorar as ruas de Florença, na Itália, sem rumo ou destino, sem preocupação com o tempo é um desses prazeres permitidos na cidade de cor ocre, berço do Renascimento. Essa cidade tem muita história para contar a quem quer escutar.

Firenze e eu: um encontro a dois

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Cais da Ilha de Genebra

By |2019-05-25T15:03:35+00:0025/03/2016|Categories: Europa, Florença, Itália|Tags: |3 Comentários

3 Comments

  1. […] o tempo em que Léo corria a Maratona di Firenze, eu perambulava sem rumo ou destino pela cidade, mergulhada em suas cores, nuances e movimento. Eu reinventei Florença em minha memória nestas […]

  2. Samantha Chagas 18/05/2019 em 14:09 - Responder

    Que lindo o seu relato. Me ajudou muito a ter mais confiança na minha viagem. Pois também sou zero, em localização e não falo italiano nem inglês bem. Saber que deu tudo certo para você me fez sentir mais segura. Obrigada por mostrar sua vulnerabilidade. Vou mais feliz e confiante agora.

    • Analuiza Carvalho 27/05/2019 em 09:06 - Responder

      oi Samantha… que alegria saber que pude contribuir para você se sentir mais confiante em relação à sua viagem. Aproveite muito todos os momentos!! Boa viagem! bjus

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