DISTRICT SIX Museum: a história da VIOLÊNCIA RACIAL na Cidade do Cabo – mais um capítulo do incompreensível APARTHEID na África do Sul

Almoçamos divinamente no Vandiar´s: um lugar simples, com deliciosa comida sul africana de influência indiana: forte e apimentada. Saborosa. O corpo estava bem, muito saciado, a alma estava feliz como acontece quando temos ótimas refeições regadas a bom vinho e conversas agradáveis com amigos queridos. Porém, todavia, era hora de entrarmos em contato com a crueldade do passado da Cidade do Cabo. Foi preciso estômago forte para visitar o District Six Museum naquela tarde.

O District Six é uma área de Cape Town repleta de lágrimas. O District Six Museum conta esta história: de dor, sofrimento, racismo, segregação e violência. Voltemos ao passado sul africano para conhecer mais um de seus muitos capítulos.

O District Six Museum na Cidade do Cabo

District Six Museum na Cidade do Cabo

Parte do District Museum visto do segundo andar da antiga Igreja Metodista: mapas do Distrito Seis, cartazes, objetos, placas das ruas daquela época…

Entrar no District Six Museum (Museu do Distrito Seis) é atravessar um portal que nos leva diretamente aos anos 60, quando o Apartheid, o sistema racial separatista sul africano (não entendo como uma abominação assim pode ter existido) cumpriu mais um de seus capítulos: a evacuação forçada de milhares de famílias que viviam nesta área denominada Distrito Seis.

Inevitáveis sentimentos de comoção, indignação e incompreensão se acomodam em nosso espírito.

O museu funciona numa antiga Igreja da Missão Metodista e conta histórias antigas. Estava lotado quando lá estivemos! Esta viagem fazemos através de cartazes, mapas, fotografias, depoimentos e recriação de ambientes tal como era a vida naquela época, distribuídos nos dois andares da pequena igreja. Placas informativas, reais, que ocupavam as ruas de Cape Town, segregando, completam o tétrico quadro deste terrível sistema denominado Apartheid. Fragmentos de uma vida cotidiana regida pelo racismo.

Traumas, histórias de resiliência e de vida, de recomeços, feridas, arbitrariedades, roubo de liberdades e dignidades… Memórias: esta é a espinha dorsal do District Six Museum.

O acervo foi montado com a ajuda de antigos residentes, o que torna tudo mais real e, naturalmente, mais tocante e dramático. As explicações estão apenas em inglês, mas ainda que o visitante não fale o idioma, conhecendo a história do District Six (Distrik Ses em Afrikaner) e observando os objetos, olhando as fotografias, ficará impactado.

A história do District Six – Cidade do Cabo, 1901

O Distrito Seis existe mais ou menos desde o fim do século XIX, com a libertação dos escravos. A primeira remoção forçada da Cidade do Cabo aconteceu nos primeiros anos da década de 1900. Uma epidemia de peste bubônica acometeu os trabalhadores africanos das docas. A doença foi trazida por ratos contaminados no feno que alimentava os cavalos do exército britânico na cidade.

Contudo, as autoridades brancas alegaram que a peste era uma coisa de africanos (leia-se negros) que eram considerados estranhos, perigosos e altamente contagiantes. Essa crença malvada foi então utilizada para justificar a remoção de milhares de famílias, da noite para o dia, da Rua Horstley, onde viviam.

Sob a supervisão da Guarda Montada, os soldados arrancavam as pessoas de suas casas e todos os seus pertences pessoais foram queimados. Só no primeiro dia, 1500 pessoas foram tiradas à força. Houve protestos e reações, claro, mas sem nenhum efeito prático no final das contas, pois os africanos foram jogados num lugar chamado Uitvlugt, posteriormente denominado de Ndabeni.

Não obstante, não demorou muito para que novos edifícios fossem erguidos, que pessoas voltassem a morar na região e que ela voltasse a ficar populosa.

Contudo, o nos anos 1960, a história se repetiu de maneira ainda mais brutal

Nos anos 1960, o District Six era um lugar bastante eclético. Pobre, a região era habitada por ex-escravos, mercadores, imigrantes, artesãos… As etnias eram variadas: de malaios do cabo (ex-escravos) a Xhosa, população nativa da África do Sul. Negros em sua grande maioria.

Um exemplo clássico que ilustra a área é a Rua Hanover: cheia de vida, animação e ruídos diversos. Pessoas gritando, cachorros latindo, vendedores anunciando em alto e bom som seus produtos… Era uma rua essencialmente comercial, com cinema, igreja, partido político, organização cultural e a Casa de Lavagem Pública. Havia pubs, sindicatos e muitas outras profissões, inclusive aquelas não muito respeitáveis eram exercidas aqui na Rua Hanover.

Em 1966 o District Six foi decretado pelo governo como Área Branca. Dois anos depois as famílias começaram a ser removidas e enviadas para as periferias da Cidade do Cabo, sem nenhuma opção. Não somente suas casas foram arrancadas, mas suas vidas, sua dignidade e sua liberdade. Nos 15 anos seguintes, mais de 60.000 pessoas foram tiradas de suas residências.

A Casa de Lavagem Pública

District Six Museum na Cidade do Cabo

Casa de Lavagem Pública no Six District em Cape Town

District Six Museum na Cidade do Cabo

Lavadeiras lavando roupas nos córregos da Cidade do Cabo

Por causa do surto de peste bubônica no início do século XX, o governo colonial construiu na Hanover Street uma Casa de Lavagem Pública com equipamentos modernos, para evitar que as lavadeiras usassem os córregos para lavar as roupas. Funcionou até que uma taxa começou a ser cobrada. As mulheres então voltaram aos hábitos anteriores. A prefeitura então fez nova oferta de período livre para a lavagem das roupas.

Nova taxa passou a ser cobrada até que na década de 1920 o governo proibiu o uso dos córregos para tal fim. Com as remoções forçadas a Casa de Lavagem Pública entrou em decadência e em 1971 foi por fim, fechada.

Por que tantas pessoas foram removidas do District Six pelo Apartheid?

Não há informações determinantes sobre quais as razões que levaram o governo segregador a tomar esta atitude cruel. As alegações oficiais indicavam que o Distrito Seis era muito violento, pobre, habitado por pessoas de hábitos imorais e que portanto, precisava ser avacuado, liberado. Os moradores expulsos contudo, afirmam que a proximidade com a Table Mountain, o Centro da Cidade  e o Porto, incomodava aos brancos. Havia, além disso, muito interesse financeiro pela área nobre.

O mais curioso, e estarrecedor, é que nada foi feito com a região que ficou abandonada. A pressão internacional teria dificultado os planos do governo à época. Como o fim do Apartheid, o governo tentou trazer as pessoas de volta, mas pouca gente retornou, deixando á área até hoje quase desabitada.

Informações adicionais do Distric Six Museum

District Six Museum na Cidade do Cabo

District Six Museum na Cidade do Cabo

Endereço: 25A Albertus St & Buitenkant Street, Zonnebloem, Cape Town

Horário de funcionamento: de Segunda a Sábado das 09:00 às 16:00

Bilhetes: R40 sem guia e R55 com um ex-residente como guia.

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Uma área repleta de lágrimas na Cidade do Cabo, África do Sul. O District Six Museum conta esta história: de dor, sofrimento, racismo, segregação e violência. Voltemos ao passado sul africano para conhecer mais um de seus muitos capítulos. #cidadedocabo #africadosul #africa #viajar #viajantesempressa #espiandopelomundo #museu #districtsixmuseum #districtsix #capetown              Uma área repleta de lágrimas na Cidade do Cabo, África do Sul. O District Six Museum conta esta história: de dor, sofrimento, racismo, segregação e violência. Voltemos ao passado sul africano para conhecer mais um de seus muitos capítulos. #cidadedocabo #africadosul #africa #viajar #viajantesempressa #espiandopelomundo #museu #districtsixmuseum #districtsix #capetown

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O District Six Museum em Cape Town, África do Sul

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Cais da Ilha de Genebra

 

By |2018-07-31T17:28:50+00:0030/07/2018|Categories: África, África do Sul, Cidade do Cabo|Tags: |8 Comentários

8 Comments

  1. Douglas 31/07/2018 em 18:44 - Responder

    Gostei muito do post! Gosto muito de visitar locais assim, ao invés de apenas lugares ‘bonitos para foto’, pois acho um desperdício de viagem não conhecer a história local.

    • Analuiza Carvalho 01/08/2018 em 10:41 - Responder

      oi Douglas… concordamos inteiramente! Para mim viajar envolve conhecer um pouco (do que é possível como turista) do lugar por onde passamos. Principalmente lugares com história pregressa tão forte e dura quanto Cidade do Cabo. Fico feliz em saber que gostou do texto. bj

  2. Juliana Moreti 01/08/2018 em 11:59 - Responder

    Otimo museu, Ana! Sao daqueles “duros” que não podem deixar de existir! Em graus totalmente diferentes, tive dificuldade em circular no Museu do Muro de Berlim. A foto das famílias separadas pelo muro me deixaram com um nò na garganta!

    Mas é estranho mesmo obrigar uma evacuação para deixar a àrea abandonada!

    • Analuiza Carvalho 01/08/2018 em 13:05 - Responder

      oi Ju… eu gosto muito de museus que resgatam a história de um lugar porque me ensinam muito. Claro que aquelas cidades como Cidade do Cabo que passaram por traumas e momentos duros há uma tendência a que choremos e fiquemos tocados, mas mostra também a força de um povo. Esses museus nos ajudam ainda a entender um pouco do tempo presente. Eu gostei bastante de ter visitado o District Six e sugiro que todo mundo que visite Cape Town vá até ele. bjs

  3. Mariana Antunes 05/08/2018 em 19:23 - Responder

    Essa parte da história é muito triste…fico arrepiada de ler o que os negros passaram por conta de tanta ignorância. É muito importante conhecer essa parte da história da África antes de visitar o país. Obrigada pela rica informação.

    • Analuiza Carvalho 06/08/2018 em 07:00 - Responder

      oi Mariana… difícil entender o preconceito, o racismo, né?! Principalmente quando ele se torna lei, quando é socialmente aceitável a discriminação. Eu acho importante conhecer a história pregressa dos lugares que visitamos para entender o presente. O District Six Museum nos conta parte do que era o Apartheid. bj

  4. rui batista 06/08/2018 em 15:00 - Responder

    Convém manter sempre bem vivo o ‘espírito’ do Apartheid e dos seus nefastos efeitos. Não foram apenas os assassínios e cargas policiais, mas como o retratado no artigo, com dezenas de milhar de pessoas simplesmente corridas das suas casas e afastadas das duas vidas porque uma área foi classificada de “branca”. Bela partilha!

    • Analuiza Carvalho 09/08/2018 em 16:15 - Responder

      Muito bem posto Rui… estas lembranças são uma tentativa de mudar de rumos, rever conceitos e nos tornarmos mais humanos. 🙂

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