CUBA me FRUSTROU enormemente

Cuba me frustrou enormemente, sem dó e nem piedade!

Desde que decidimos ir para Cuba, eu mergulhei em pesquisas. Li muitos livros, assisti a muitos filmes e comecei a tecer minhas próprias teorias a respeito do país, de sua trajetória, passado e presente, além de imaginar seu caminhar em direção ao futuro.

Eu estava ansiosa para confrontar meu imaginário com a realidade.

+ Nunca fui Primeira Dama

Cuba se nega e se fecha para mim

Cuba me frustrou

Tentei ler, tentei acessar, mas Cuba se negou a me mostrar para mim

Por conta dessa imersão eu me sentia, até certo ponto, familiarizada com a paisagem de Havana. Desconfio, sem muitas certezas, que esta foi a principal razão da minha paixão em caminhar sem rumo, tantas e tantas vezes pelas ruas de Havana, perdida em devaneios e questionamentos.

O cenário não me decepcionou. O país sim. Não! Termo errado. Não decepcionou. Na verdade, me frustrou enormemente, pois se negou peremptoriamente a mim.

Cuba se mostrou inacessível às minhas tentativas de aproximação. Não fui capaz de acessar este país, seu povo, de desvendá-lo apesar de minha sede por conhecer as partes mais íntimas de sua alma, fossem elas boas ou não. Cuba, contudo, me deixou com muitas perguntas e quase nenhuma resposta.

Misteriosa, tenho certeza que ela sorriu diante de minha incômoda ansiedade, com desprezo. Minha abelhudice batia constantemente em paredes mudas e era lançada ao vazio. Ainda assim, e talvez por isso, a energia de Havana tenha mexido tão intensamente comigo, sem atenuantes. A senti de forma poderosa!

O barbudo

Cuba me frustrou

Havana

Tentei ver através das portas, dos olhos e das almas, mas obtive pálido sucesso. Uma vez, almoçamos em um paladar. Não me recordo o nome, apenas que Léo e eu éramos os únicos clientes e que pagamos o equivalente a R$12,00 por um café coado e morno.

Foi a primeira pessoa falante que encontramos em Havana. Acho que a única para falar a verdade. Sem tocar no nome de Fidel, ele falou sobre seu governo. Usou gestos para indicar o barbudo, claramente evitando se expor muito.

Situação inusitada

Cuba me frustrou

Havana

Em outro momento, me deparei com uma situação inusitada.

Estava na porta do elevador do hotel onde estava hospedada e enquanto aguardava, puxei assunto com o funcionário que posicionado ali perto. À medida que eu me aproximava dele, ele se afastava de mim. Lerda que sou, demorei um tempo para entender a situação. Mantive então distância.

Ele conversou comigo, mas de maneira discreta e sem olhar para mim em nenhum momento. Contou-me que depois que os turistas começaram a chegar, a vida dele melhorou. Ele mudou de casa e de bairro e que hoje vivia melhor.

Quis perguntar mais, mas o elevador chegou e ele me indicou com um gesto que eu deveria entrar.

+ O Hotel Habana Libre é personagem cubano

Não quis pagar para ver, ou melhor, para ouvir

Cuba me frustrou

Escadarias da Universidade

Fomos abordados nas ruas de Havana inúmeras vezes. Pessoas de todas as idades pediam coisas. Nunca dinheiro, sempre coisas triviais como sabonete, pasta de dentes, sabão para lavar roupa. Um menino me pediu lápis. Não tinha nada disso, se não teria doado tudo.

Apenas uma vez me pediram dinheiro. O moço era jovem, devia estar na casa dos 20 anos, mas não me recordo de seu rosto. Lembro-me apenas dele se aproximando de mim nas escadarias da Universidade de Havana.

Pensei que finalmente ia começar a saciar o meu interesse pelo andamento, pela vida íntima daquela cidade. Enfim iria descobrir se a realidade dos filmes e livros eram as verdades das existências de Havana.

Minha felicidade logo se desfez e meu sorriso morreu antes mesmo de ganhar larga vida, quando diante de minha primeira pergunta, já apagada pelo tempo, ele me pediu dinheiro. Eu poderia ter dado alguns CUCs (a moeda para estrangeiros utilizada no país) para obter as tão desejadas informações.

No entanto, minha natureza desconfiada me impediu. Eu não sabia se as respostas compradas seriam reais ou inventadas especialmente para mim, a turista curiosa, bisbilhoteira. Não quis pagar (literalmente) para ver.

Em todos os países que eu chego, eu converso. Trocar ideia com as pessoas faz parte do entendimento sobre o lugar que nos acolhe naquele momento. Quando recebo visitantes de outros países, converso. Eles perguntam, são curiosos. Eu respondo. Trocamos ideias, conhecemos as culturas de cada país. Saímos desses encontros mais ricos, muito mais ricos.

Na Cuba que que eu visitei, isto não foi possível.

Cigar, mujeres, my friend? A Havana de Pedro Juan Gutiérrez

Cuba me frustrou

Havana

Os cubanos em Havana pediam muito, mas ofereciam também: cigar, mujeres, my friend? diziam em cada esquina, especialmente em Centro Habana. A oferta nunca era dirigida a mim. O alvo era sempre Léo.

Minha presença, contudo, nunca os intimidou. Eles não eram ostensivos, mas tampouco eram discretos. A cena repetiu-se inúmeras vezes pelas ruas de Havana. Coloquei-me sempre como observadora da cena, que não me causava nenhum tipo de irritação.

Em momentos como este pensava apenas no autor Pedro Juan Gutierrez e no mundo que percorri conduzida por ele, mais de uma vez, através de sua narrativa intensa e sempre muito crua.

A irritação demorou mas apareceu

Cuba me frustrou

Pelas ruas de Havana, tentando entendê-la

No entanto a minha irritação com a abordagem invasiva dos cubanos demorou, mas ela veio. Nem tanto pela abordagem em si, embora ter meu pequeno mundo invadido, sempre me incomode. Em Havana, a exasperação me tomou principalmente por conta de minha inabilidade de extrair qualquer tipo de conhecimento daquelas pessoas que me viam apenas como uma possível moeda de troca.

Segui em frente, frustrada e a esta altura já não havia mais esperanças e eu já tinha me conformado que não encontraria em Havana aquilo que buscava. Não os culpo! Cada um sabe de suas lutas pela sobrevivência.

Devo ressaltar e registrar que apesar disso, (ou será que foi por causa desse desprezo mal disfarçado?!) o que eu senti por Havana foi um caso de amor à primeira vista e passei dias ótimos por lá. Além disso, fui muito bem tratada nos lugares que visitei. Com certa distância respeitosa. Ou frieza calculada?!

+ Amor à primeira vista por Havana

Será que…

Cuba me frustrou

Será que…

Essas histórias aconteceram muitos anos atrás. Eu já não sou a menina que visitou Havana. Será que a cidade também mudou?! Será que hoje conseguiríamos estabelecer outro tipo de relacionamento?! Será que se eu voltasse, Havana me deixaria participar de sua intimidade?! Será que…

A Flávia, que escreve para o Quarto de Viagem, visitou Havana alguns anos depois que eu estive no país… Quer ler mais impressões de viajante sobre Havana?! Então clica no link bem aqui abaixo! Cais da Ilha de Genebra

+ Primeiras impressões de Havana, por Flávia Donohoe

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Impressões e percepções de uma turista em #Havana #Cuba muitos e muitos e muitos anos atrás... #viajantesempressa #viajar #espiandopelomundo

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Cuba me frustrou enormemente

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Cais da Ilha de Genebra

 

By |2018-07-12T16:19:23+00:0002/08/2017|Categories: Américas, Cuba, Havana|Tags: |9 Comentários

9 Comments

  1. Francisco Piazenski 03/08/2017 em 13:40 - Responder

    Relato muito verdadeiro e vindo da alma… Parabéns, eu realmente entendi seja visão sobre Cuba, e como nós viajantes sabemos, cada cultura e cidadãos com seu cada qual.

    • Analuiza Carvalho 03/08/2017 em 15:13 - Responder

      oi Francisco… obrigada! Verdade! Aprendemos a respeitar todas as culturas não é mesmo?! Agente transformador de viajar. É um expandir de fronteiras como bem coloca o nome do seu blog! E mais ainda, cada um de nós tem uma vivência e interpreta de uma maneira distinta e particular cada uma dessas culturas não é?! Amamos as diferenças! Obrigada de coração por sua mensagem! bj

  2. Fabricio 03/08/2017 em 21:34 - Responder

    Eu fui a Cuba esse ano, na verdade passei o reveillon lá. Fiz um post bem semelhante no meu blog e algumas pessoas criticaram, dizendo que eu estava exagerando. Enfim, Cuba me decepcionou. Se eu voltaria? Não mesmo.

    • Analuiza Carvalho 04/08/2017 em 14:05 - Responder

      oi Fabricio… cada um de nós viajantes tem um olhar diante dos locais que visitamos, uma vivência e um sentimento. Penso que análises críticas sobre os fatos que vimos e vivenciamos, não significam desrespeito a culturas ou modos de vida.

      Acredito ainda que nossa capacidade de observação e interpretação daquilo que estamos vendo ajuda em nossa transformação como ser humano. Não consigo passar por um lugar apenas, sem tentar entendê-lo, ainda que com olhos de turista.

      Entendo ainda que todo lugar no mundo tem aspectos positivos e negativos (embora esse juízo possa variar dependendo da pessoa a observar) e que enxergá-los não denota nenhum tipo de desrespeito como parecem pensar alguns.

      Por fim,gostar ou não de um lugar acontece com todo mundo. O que eu vivi em determinado destino vai ser totalmente diferente do que você viveu. E viva as diferenças.

      Entretanto, acho que nem todo mundo consegue aceitar as diferenças, entender o que leem… eu não li seu texto, mas acredito que você narrou o que você viveu por lá e não foi bom. Acho que Cuba desperta sentimentos intensos nas pessoas: de amor ou ódio! Ah! a vida está tão longe ser somente preto ou branco, não é?!

      Me manda o link para que eu possa ler.

  3. […] + Os cubanos e eu […]

  4. Flávia Donohoe 19/06/2018 em 06:56 - Responder

    Como comentei lá no meu post, eu amei o seu relato e entendo a sua sensibilidade. Cuba também foi um mix de sentimentos, afinal conversar com várias pessoas nas ruas e nas casas e ver como eles são iludidos é um choque de realidade. O nosso host na casa particular é um homem dotado de cultura e fala várias línguas, e via-se que ele não queria falar mal do regime, mas mesmo assim deixou escapar algumas coisas.
    Fiquei incomodada com o assédio dos homens nas ruas, e com a ilusão desse povo, eles sofreram e sofrem muito, a cada pessoa que nos parava na rua e nos pedia coisas simples como uma pasta de dente era de cortar o coração. Quero voltar e ver como está a situação atualmente. Um beijão Aninha.

    • Analuiza Carvalho 19/11/2018 em 10:39 - Responder

      oi Flávia… muito bem dito! Cuba nos causa um misto de muitos e contraditórios sentimentos, sem dúvida e como tudo na vida, nada por lá é totalmente preto ou branco. Cada um vive e sente Havana como pode e neste quesito descrito no texto Cuba me frustrou enormemente. Isso faz muito, muito tempo. Quero um dia voltar, ver as mudanças ocorridas no país, não só na economia e na política, como nos sentimentos e atitudes das pessoas. bjuuusss

  5. Vanessa 23/01/2019 em 09:00 - Responder

    Oi Ana, que bacana seu relato. Estive em
    Cuba em março de 2016 com meu esposo e sogros. Visitamos 3 cidades e ficamos 10 dias. Nos hospedados nas casas que tem licença para isso. Utilizamos táxi para ir de uma cidade a outra. Detalho isso porque tive oportunidade de conversar longamente com muitas pessoas e não percebi nada disso. O taxista, um rapaz de 25 não gostava e falava abertamente sobre isso. Já os donos da casa, mais velhos, criticavam os jovens que não viveram a revolução e por isso criticavam… enfim, não percebi medo nas falas das pessoas. Só fui abordada uma vez na rua por uma pessoa pedindo dinheiro. Não fiquei em bairro badalado, pelo contrário. Enfim, parece q estamos falando de lugares completamente diferentes. Que pena!
    Beijo grande

    • Analuiza Carvalho 10/05/2019 em 12:07 - Responder

      oi Vanessa… estive em Cuba alguns anos antes de você e o que você relata dos tempos atuais é apenas a evolução natural das gerações e cidades. Quando eu fui, Fidel ainda era vivo. Os jovens ainda que com medo, já aspiravam por novos ares, aumentava o contato com o turismo, então eles passaram a ter mais acesso a informações vindas de fora…

      Você visitou uma Cuba, onde Fidel já estava morto, Raul mais velho, a velha guarda morrendo, perdendo força, o turismo em maior número e certa aproximação com o governo de Obama, além de algumas tímidas aberturas econômicas internas. Então, a Cuba que eu conheci, imagino que você jamais conhecerá. Assim como a Cuba dos que visitaram antes de mim, no auge da ditadura dos Castro eu não conheci e não conhecerei.

      A diferença de opinião entre as gerações é natural em qualquer cultura e faz parte dos tempos em que cada uma delas vive. A Cuba de Fulgêncio era cruel, por isso os mais velhos afirmam isso para os mais novos.

      Se você quiser saber um pouco mais sobre outros tempos cubanos, tenho alguns livros e filmes – fora de circuito, para te indicar.

      De todo modo, acho bom que novos ares estejam soprando em Cuba. Que a vida esteja mudando e oxalá seja para tempos bons para todos. Eu quero muito voltar um dia, daqui mais uns anos para ver de perto estas mudanças. De qualquer maneira eu AMEI minha viagem ao país!

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