A Cozinha VENENOSA – um jornal contra HITLER

Por 50 anos, o jornal ligado aos social-democratas Münchener Post atuou na Baviera. De 1920 até 1933, fez oposição ferrenha à Hitler, que apelidou o periódico de Cozinha Venenosa. Eles travaram duras e violentas batalhas, onde houve somente um vencedor.

Quem resgatou esta trajetória foi a escritora e jornalista brasileira Silvia Bittencourt, através de matérias e fotos publicadas no próprio jornal. O Münchener e sua história de luta contra o nazismo se perdeu no tempo. Ele hoje é desconhecido inclusive pelos alemães.

O resultado da pesquisa de Silvia está no livro A Cozinha Venenosa, que nos leva pela trajetória de Adolf Hitler desde o aparecimento de seu nome nas cervejarias de Munique, até sua chegado ao poder como chanceler da Alemanha, no inverno de 1933, iniciando um período sombrio e triste para a humanidade.

A trágica continuação dessa história todos nós conhecemos.

Münchener Post X Adolf Hitler

Cozinha Venenosa

Altheimer Eck com a sede do Münchener Post ao fundo

O Münchener Post era um jornal de cunho social-democrata com tendência ao sensacionalismo, de porte pequeno, com sede na cidade de Munique.

O jornal travou ferrenha batalha contra Adolf Hitler e seu partido, o NSDAP – Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei ou Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o partido nazista.

Em 14 de Maio de 1920, o futuro ditador é mencionado pela primeira vez nas páginas do jornal bávaro, situando-o na cena política de Munique.

“(…) na terça-feira à noite, um senhor chamado Hitler falou sobre o programa desse “partido”. Ele soltou as mesmas palavras e disparou os mesmos clichês que somos obrigados a ouvir nos eventos de propaganda nacionalista (…)”.

                                                    Publicou o Münchener Post sob o título ” Irmãos iguais, raças iguais”, na sessão Assuntos de Munique.

Inúmeras vezes o Post denunciou os ataques promovidos pela SS – escalão de proteção, a guarda particular de Hitler. Vezes sem conta, o Münchener teve sua sede destruída, seus funcionários perseguidos e a publicação impedida de circular por ordem judicial.

Em suas páginas, o jornal publicou matérias apaixonadas e duras contra as ações e ideologias de Hitler e a SA – a violenta tropa de choque. Tudo em vão.

Adolf Hitler e a Cozinha Venenosa

O ditador alemão apelidou o jornal de cozinha venenosa (giftküche) numa alusão ao jargão jornalístico que diz que em um jornal as notícias são “cozidas” e qualificando como venenosa, pois afirmava que as publicações do Münchener eram mentirosas.

Hitler tinha ainda outro apelido para o Post: Münchener Pest ou a Peste de Munique.

A publicação e o líder nazista tinham uma relação de ódio. Tanto que algumas semanas após Adolf Hitler ter sido nomeado chanceler da Alemanha, o Münchener Post foi definitivamente calado e sua luta contra o futuro ditador foi perdida e permanentemente encerrada.

A sede do jornal na Altheimer Eck, num 19, foi invadida e destruída.

                          “As sombras dos criminosos passavam furtivamente de lá para cá. (…) só se ouvia o estrondo abafado dos objetos caindo na rua” – escreveu Hoegner, articulista do jornal.

Era 1933 e Hitler já era chanceler.

A polícia se omitiu diante do vandalismo.

Após a destruição do Post, a perseguição à linha de frente do jornal foi iniciada.

A charmosa e pequenina rua, muito bombardeada na Segunda Guerra Mundial, ainda existe, assim como o prédio e eu estive lá, tentando “ver” esta história.

Foi emocionante!

Fatos e fotos

Cozinha Venenosa

Hofbräuhaus em Munique: discuso de Hitler aconteceu no salão do andar superior

Na primavera de 1920 o Post começou a falar sobre Hitler e não parou mais até 1933. Seus repórteres testemunharam e relataram nas matérias do jornal momentos históricos importantes, além de serem vítimas frequente da violência nazi.

Durante o fracassado Golpe da Cervejaria, por exemplo, teve sua sede destruída pela SA, que hasteou uma bandeira da suástica no primeiro andar do prédio da Altheimer Eck. A depredação impediu inclusive a circulação do jornal no dia seguinte ao golpe .

Chovia em Munique naquela noite: o ar sombrio como os próprios acontecimentos.

Desde o cenário social, econômico e político da Alemanha pós-primeira guerra, até a subida ao poder do NSDAP, vamos percorrendo o passado, percebendo o cenário da época, as omissões, as tomadas de decisão pelas instituições de então, e de muitas maneiras sentimos agonia por sabermos onde esta história culmina.

A autora vai preenchendo as lacunas das notícias, explicando os fatos, o contexto e falando de seus personagens.

Ao caminharmos pelas páginas de A Cozinha Venenosa, acessamos momentos importantes do crescimento do nazismo na Alemanha como o simbólico discurso de Hitler na cervejaria Hofbräuhaus (24 de Fevereiro de 1920), onde o nazista fez seu discurso inflamado, encontrando eco na plateia de cerca de 2.000 pessoas, que o ovacionou, confirmando assim seu maior (e mais perigoso) talento – a oratória.

Também ai estive tentando vislumbrar o pretérito.

Personagens

A Cozinha Venenosa

Hermann Göring (segundo no comando nazista) e Rudolf Hess  (adjunto do Führer) durante o julgamento de Nuremberg

Conhecemos então as biografias dos que, de uma maneia ou de outra, escreveram a narrativa destas décadas, como Edmund Goldschagg, editor de política do Post, o advogado judeu do jornal, Max Hirschberg e Wilhelm Hoegner, o articulista principal, além de Erhard Auer, editor-responsável pelo Münchener.

Além deles, alguns importantes personagens nazistas que se tornaram mundialmente famosos por conta das atrocidades cometidas contra a humanidade. Entre eles Alfred Rosenberg, responsável pela base antissemita do NSDAP, condenado e enforcado no Julgamento de Nuremberg.

Hermann Göring – segundo no comando, também foi Julgado em Nuremberg, mas suicidou-se antes que a sua sentença de morte pudesse ser executada.

Quando estive em Munique em busca dos cenários desta história, vi fantasmas, vi lágrimas, ouvi choros, dor, tristeza… Vi também a valentia dos que tentaram lutar contra a crescente loucura de Hitler e seus comparsas.

Na Baviera

A Cozinha Venenosa

A Cozinha Venenosa

Ler A Cozinha Venenosa antes de minha viagem à Baviera, antes de visitar Nuremberg e Munique foi fundamental para conhecer e compreender a dimensão do que estava vendo, dos locais que estava percorrendo.

Fui em busca dos edifícios históricos, de acessar a alma de quem de um lado ou de outro construiu a história alemã das décadas de 30 e 40 que reverberou no mundo inteiro.

Foi intenso, foi forte estar diante desses cenários da vida real, dessa história de ódio e horror que aconteceu apenas ontem. Os fragmentos ainda estão lá para quem quiser ver. Eu quis ver.

A Cozinha Venenosa me ajudou a completar os espaços do que eu já sabia, a contextualizar fatos, a conhecer novos personagens. De alguma maneira aquelas pessoas que eram a alma do Münchener criaram vida, ganharam minha admiração e me ajudaram a conhecer mais um pouco do nascimento e crescimento do NSDAP e de seu líder.

Só não me ajudaram a compreender todos os acontecimentos. Possivelmente porque nem eles mesmos conseguiram.

Ruas e personagens, testemunhas da terrível segunda guerra mundial e dos anos que a antecederam, me contaram o papel que desempenharam.

A Cozinha Venenosa, além de relatar o itinerário nazista na Baviera através da perspectiva do Münchener Post, nos leva a uma reflexão: como Hitler passou despercebido aos olhos do mundo e como a Alemanha se omitiu diante dele?

A Cozinha Venenosa – um jornal contra Hitler

Autor: Silvia Bittencourt (Brasil)

Editora: Três Estrelas

Números de Páginas: 372

By |2018-03-07T01:05:55+00:0013/10/2017|Categories: O Mundo nos Livros|Tags: , |2 Comentários

2 Comments

  1. Klécia Cassemiro 23/10/2017 em 08:40 - Responder

    Eu tenho um pezinho na historia da segunda grande guerra. leio tudo que posso sobre, não importa a nacionalidade de quem produziu. Eu não conhecia esse livro, e achei a proposta super interessante – ainda mais por ter sido uma brasileira a fazer o resgate histórico. E parece que o trabalho merece mesmo o destaque, a obra tem caráter histórico e social muito impressionante! Entrou pra minha lista de livros a ler.

    • Analuiza Carvalho 25/10/2017 em 09:19 - Responder

      oi Klécia… eu também não conhecia esse livro, até que uma amiga viu na livraria, achou que eu fosse gostar e me presenteou! O momento foi super oportuno, pois poucos meses depois eu fui para Munique e afirmo que fez toda a diferença para mim. Visitei lugares que hoje passam despercebidos para muitas pessoas e pude olhar o passado de diversos edifícios, alguns que se perderam no tempo.

      beijocas

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