A CORRIDA de São SILVESTRE em São Paulo

Houve um tempo, acreditem, em que réveillon era sinônimo de corrida de São Silvestre. Sim, a corrida era noturna e acontecia perto da meia-noite. Quem nasceu em São Paulo no início da década de 70, como eu, sempre parava na frente da TV para assistir a São Silvestre paulistana na véspera de ano novo.

Entre brindes com guaraná, cortes de pernil e farofa com passas, eu assistia à “maratona da São Silvestre” com o interesse de quem contava os minutos para pular 7 ondas no mar e varar a madrugada esperando o primeiro sol do ano raiar.

Mas o tempo passou e o cardápio mudou. Um dia, eu comecei a correr na rua.

Então, 43 anos depois de ter pisado em solo paulistano pela primeira vez, lá estava eu esperando a largada da 93ª. Corrida de São Silvestre.

Obviamente, chovia na terra da garoa, mas me parece que os corredores não se importavam.

A largada da corrida de São Silvestre

Enquanto eu e os outros 29.999 inscritos esperávamos, o sistema de som tocou “Fácil”, dos mineiros Jota Quest. E me lembro da metáfora da corrida de São Silvestre: a última corrida do ano, o último dia do ano.

Lembro-me de tudo o que corri até ali, de todas as provas do ano: desde a primeira, a corrida sagrada até a igreja do Bonfim, passando pelas maratonas e meias. Não que um dia feliz seja muito raro, mas às vezes tudo o que se precisa é de uma canção fácil. E todo mundo canta o refrão.

No que percebo uma mulher vestida com macacão de Capitã América. A corrida de São Silvestre tem disto: é uma corrida alegre, quase todo mundo quer curtir.

Então aparece um cara do lado da Capitã América vestido de morte: macacão preto dos pés à cabeça e ossos pintados à mostra. Ele vem caminhando, mas para devido à multidão. Quando a Capitã América percebe, pede uma foto juntos.

Metáfora da vida?!

O som muda e toca “Mar de Gente”, dos cariocas O Rappa.

E eu mentalmente brindo à cidade onde nasci, brindo às corridas de 2017, brindo à Analuiza e meus amados amigos, com quem tive a sorte, o prazer e a alegria de estar em 2017.

Lá estou eu naquele mar de gente da largada, ainda saboreando os bares, os restaurantes, as cidades e as risadas que percorri durante o ano. Estar com Analuiza e com os amigos é a luz que preciso e que me ilumina. Viajar é preciso se não a rotina te mata.

Então largamos.

A prova e seus detalhes

Com tanta gente junta, o começo foi tumultuado. Como eu estava a alguns metros antes da linha de largada, não consegui correr logo que a corrida começou, o que é normal, mas pensei que começaria a trotar logo após o pórtico.

Teria sido possível se não fosse uma câmera aérea da rede de TV que filmava e que atraiu praticamente todos os 30.000 corredores se espremendo… imediatamente pensei: onde vim parar? Por que inventei essa prova? Já vi que vou me espremer durante 15K…

Mas, de repente, a prova fluiu. Os corredores ganharam velocidade – dentro do possível – e a muvuca foi dispersando…

O percurso

Veio então o túnel no fim da Av. Paulista e a Av. Dr. Arnaldo, em direção ao Estádio do Pacaembu, só perceptível por quem conhece o local, por que os muros impedem a visão do campo. E só especial para quem gritou campeão lá!

Acho que a trilha sonora da corrida de São Silvestre é “Sampa”, do baiano Caetano Veloso. Por que a São Silvestre não tem um percurso bonito, mas um percurso histórico. E, para mim, afetivo e saudoso.

Eu nasci e morei em São Paulo até os 7 anos. Meus Pais (baiano e gaúcha) se conheceram em Santos, mas moraram muito tempo em São Paulo. Minha mãe se orgulha de ter trabalhado na Light (São Paulo Tramway, Light and Power Company), cuja antiga sede é referência até hoje no Centro de Sampa. E sempre vibrou ao dizer “sou campeã do Quarto Centenário”, referindo-se ao campeonato paulista de futebol de 1954.

Eu voltei a morar em Sampa entre 1997 e 1999, entre os 22 e 25 anos. Trabalhei muito, vivi muito, ri muito, aprendi muito. Trago comigo importantes amizades daqueles anos. Então correr lá foi muito especial. Eu sou formado de um pouco de todos os lugares por onde passei e confesso que tenho uma boa parte daquele solo paulistano.

Quando sai da Av. Paulista (o “difícil começo” da música, onde você tem de fugir da multidão e se “afastar do que não conheço” – os outros corredores) e passa pelo Pacaembu, a corrida vai em direção à Barra Funda para depois percorrer um bom trecho do Centrão de São Paulo.

A corrida de São Silvestre passa pela Sampa de concreto (“aprende depressa a chamar-te de realidade”) e não é uma prova fácil, por que tem muita gente correndo e alguns aclives consideráveis. Mas uma das compensações é que você vê gente torcendo alegre nas ruas, apesar das “filas, das vilas, favelas”.

Quando entro na Av. Rio Branco, sei que estou indo para o Centrão, onde trabalhei, onde minha mãe trabalhou. Cruzo a Rua Aurora, mas não sei a que distância estou do número 100 – onde fica o Bar Léo, meu antigo endereço 2 vezes por semana.

O Centro é um caldeirão étnico, talvez a “Pan-América de Áfricas utópicas, novo quilombo de Zumbi”.

Entramos na Av. Ipiranga e logo viramos na Av. São João, em direção ao Largo do Arouche. Mais algumas voltas e estamos de volta na Av. Ipiranga, passando pela Praça da República para logo mais virar de novo na Av. São João.

Corrida de São Silvestre em São Paulo

Corredores pela região da República – foto da Juliana do blog Turistando.in

E alguma coisa acontece no meu coração não ali no cruzamento, mas quando vejo o Banespão crescer na minha frente.

Como eu disse, tenho muito de Sampa em mim, principalmente por que trabalhei no Centro. O Banespão ou Edifício Altino Arantes, sede do Banco do Estado de São Paulo desde sua construção em 1947 e até sua privatização em 2001, é referência visual no Centro de São Paulo e um dos símbolos de Sampa. Impossível não olhar para ele e não ter lembranças…

E continua…

O percurso segue por ruas e lugares históricos do Centro: Teatro Municipal, Praça Ramos de Azevedo, Rua Cel. Xavier de Toledo, Rua 7 de Abril, Rua Bráulio Gomes, Rua da Consolação, Viaduto 9 de Julho e Rua D. Maria Paula até que…

Avenida Brigadeiro Luís Antonio.

Nesse ponto, parece que a corrida se resume a ela. Seus quase 2K de subida são comentados por todos os corredores antes, durante e depois da prova. Por exemplo: pouco antes de chegarmos nela, uma torcedora gritou “Brigadeiro está chegando”! Um corredor, do meu lado, prontamente respondeu: “vou comer ele todo”! E antes de iniciarmos a subida, a galera toda começa a gritar “Uh! Brigadeiro! Uh! Brigadeiro”!

Mas, ali, já tinha virado festa. Ou melhor: a festa tinha tomado conta.

Eu já tinha corrido o que tinha de correr, tinha me emocionado com o que tinha de me emocionar, tinha me lembrado do que era para lembrar. Era a última prova do ano depois de 2 maratonas (Maratona de Genebra e Maratona de Nova York) e algumas meias, além de outras provas icônicas como a Volta da Pampulha. Então mantive o sorriso no rosto e subi “correndo devagarinho”, saudando os espectadores, que nesse trecho tomam todos os espaços das calçadas.

A chegada

Quando percebi, estava cruzando a linha de chegada na Av. Paulista. Tive de caminhar muito até receber medalha e sacola com frutas e outras comidas, mas isso é típico das provas com 30.000 pessoas. A chegada é na frente do prédio da Gazeta, mas a dispersão vai até o metrô Trianon-MASP.

Só então, com a linda medalha no peito, pude apreciar a Av. Paulista, a síntese paulistana. Só minha.

Efeito São Paulo

Confesso que quando voltei a morar em São Paulo em 1997, eu nada entendi. Tinha medo de dirigir nas Avenidas Marginais, por que achava que o caminho errado ía me levar para uma bocada. São Paulo é feia – durante anos eu mesmo dizia que não se viam estrelas no céu paulistano –, mas é bela se você souber olhar de perto e de dentro.

São Paulo te transforma para o bem ou para o mal.

São Paulo é “Sampa” de Caetano, mas também é das músicas do Ira!, dos Racionais MC’s, de Adoniram Barbosa, do Criolo, do Supla, dos Titãs… do Jota Quest, d’O Rappa e de outros brasileiros, “quem vem de outro sonho feliz de cidade”…

Talvez uma imagem que represente São Paulo seja a flor que nasce no concreto. A beleza que insiste em contrariar algumas regras e se mostrar. Sampa é assim: o avesso do avesso do avesso… cruel, gentil, grita de ódio, sorri de amor.

Correr a São Silvestre é assim: não tem mar, não tem nascer do sol, não passa pelo Parque do Ibirapuera, tem muvuca… mas mostra que é possível emocionar e ser uma corrida de qualidade apesar dos pesares…

Obrigado Sampa, por me deixar passear na tua garoa e me deixar te curtir numa boa… Eu volto – para correr, para beber, para comer, para estar com amigos, para sorrir!

P.S.: sugiro que, depois de terminar a leitura, releia ouvindo as músicas e as bandas citadas…

Corrida de São Silvestre em São Paulo

A medalha: lindona

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A Corrida de São Silvestre em São Paulo é uma das mais tradicionais corridas de rua do Brasil. Famosa, ela emociona os corredores. #corridaderua #sãosilvestre #sãopaulo #brasil #viajantesempressa #espiandopelomundo #quercorrercomigo

 

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A corrida de São Silvestre em São Paulo

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Cais da Ilha de Genebra

 

By |2018-11-03T17:29:08+00:0027/01/2018|Categories: Quer Correr Comigo?|Tags: , |2 Comentários

2 Comments

  1. Klecia 30/01/2018 em 12:03 - Responder

    Eu não resisti ou esperei chegar até o final do texto. No meio do post já estava ouvindo Pan-Américas de Áfricas utópicas, a música que canto cada vez que piso em solo paulista. Continuo sem entender nada da dura poesia das esquinas de SP, e por isso mesmo amando e amando e amando profundamente essa cidade.
    Corri muitas dessas corridas contigo Leo, mesmo sem nem te conhecer ou sequer ter falado contigo. Mas acompanho a Ana, que é metade da tua alma e corri o mundo com vocês. E foi muito bom. A Sao Silvestre foi uma maneira linda de terminar esse ano.
    Espero um dia correr essa prova icônica também. E que 2018 traga muitas novas conquistas. E mais avesso do avesso do avesso do avesso pra gente. Que a vida não é pra ser em linha reta. É pra revirar e renascer, como uma flor no concreto, como São Paulo e esses baianos que andam passeando na sua garoa!

    • Analuiza Carvalho 11/02/2018 em 09:11 - Responder

      Eu sempre fico muito nas nuvens quando os textos do EPM são inspiradores, seja em que medida for. Também sigo amando (e odiando) e amando (e odiando) São Paulo tantas e tantas vezes forem possível em uma única vida Ela, a cidade?! Bem, segue indiferente seus caminhos e seus rumos, duros e suaves…

      São Silvestre é mesmo uma prova icônica e uma maneira emocionante de encerrar as corridas do ano. Na torcida para que você percorra, desbrave os quilômetros paulistanos.

      Leo fica muito satisfeito em saber que correu muitas destas corridas com ele. Diz que te encontra nas pistas, no Rio de Janeiro, e pelas páginas do FSV quando seus quilômetros percorridos virarem palavras, emoções e sensações por lá.

      Que 2018 traga viagens e corridas, corridas e viagens. Que projetos saiam do papel e que vivamos a vida da melhor maneira que soubermos, mas sempre evitando a estagnação. bjus e até a próxima

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