DACHAU: o primeiro que Campo de CONCENTRAÇÃO da Alemanha NAZI

Dachau foi o primeiro Campo de Concentração que eu visitei e não sabia bem o que esperar. O que vi e senti durante a visita esteve completamente fora dos limites do que eu podia algum dia ter imaginado. Aquele lugar ficou em minha mente durante muitos dias.

Dachau é uma cidade distante 20 quilômetros de Munique, na Bavária. Nós chegamos até lá de trem regional. O campo ali situado foi o primeiro criado pela Alemanha Nazi, em Março de 1933, por Heinrich Himmler, como um local para prisioneiros políticos, transformando-se em campo de extermínio anos mais tarde.

Estima-se que mais de 200.000 prisioneiros passaram por este campo. Hoje, Dachau é um assombroso memorial para os milhares de presos que aqui morreram e mais do que isso, é uma lembrança viva desses anos escuros, aterrorizantes, como um aviso para que nada, absolutamente nada, nem levemente parecido volte a acontecer.

Dachau, que serviu de modelo para outros campos e foi o único que existiu durante todo o período nazista, é formado por muitas áreas que podemos visitar: Jourhaus (os escritórios da SS – Schutzstafell – guarda de elite do partido nazista e seu principal instrumento de controle), o antigo prédio de manutenção, onde está a exibição permanente sobre os anos de poder do NSDAP – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (o museu) e o cinema.

Além disso, encontramos a área de inspeção, o monumento internacional, entre outros monumentos, o Bunker (antiga prisão – lugar de tortura), réplicas dos barracões, instalações de segurança que são as torres, a área religiosa e o crematório.

O Campo de Concentração Dachau

Dachau

Entrada principal do Campo de Concentração Dachau

Dachau

Entrada principal do Campo de Concentração Dachau

Dachau

Entrada principal do Campo de Concentração Dachau com parte do prédio de manutenção à direita

Chegamos lá por volta da hora do almoço, lanchamos, alugamos audioguias, respiramos fundo e nos colocamos em movimento ouvindo a história que aquele lugar tinha para nos contar.

Como uma ironia, o caminho que nos dá acesso ao campo é bonito, lembrando a entrada de um parque ou algo assim. Nos anos em que milhares de pessoas ali padeceram, ficava o pavilhão da temida SS e era a única entrada para o campo, onde os prisioneiros eram fotografados e fichados. Aqui, como observadores de um tempo, trespassamos as fronteiras de Dachau.

O que vimos foi assustador. Por mais que conheçamos esta história, cada vez que a revivemos, é um como receber um tapa na alma.

O Campo de Dachau foi concebido para 6.000 prisioneiros, mas quando foi liberado pelos americanos em Abril de 1945, havia cerca de 32.000 sobreviventes, sendo torturados física e psicologicamente, expostos à tirania sem limites de guardas da SS, onde controle e terror dominavam a vida diária.

“O trabalho liberta”

Dachau

“O trabalho liberta” diz a inscrição no portão de entrada de Dachau

Dachau

Campo de Concentração Dachau

Quando me vi diante do icônico portão de Dachau com os dizeres, “O trabalho liberta”, eu estremeci.

Um deboche dos nacional socialistas com os trabalhadores escravizados. A viagem estava começando. Após aquele portão estava um passado de terror e sofrimento imensuráveis, indesculpáveis.

Dachau serviu também como centro de treinamento para a SS onde jovens recrutas eram incentivados e encorajados a torturar, humilhar e matar os prisioneiros. Por conta disso, Dachau ficou conhecido também como “Academia do Terror”.

Logo na entrada, após o portão principal, há uma foto com os presos em fila, tirada de cima para baixo para reforçar sua condição de inferioridade. Ao passar por aquele portão, homens eram obrigados a deixar do lado de fora sua liberdade, direitos e dignidade.

O bunker e o filme

Dachau

Campo de Concentração Dachau – o Bunker

Dachau

Campo de Concentração Dachau – corredores do Bunker

Dachau

Campo de Concentração Dachau – corredores do Bunker

Dachau

Campo de Concentração Dachau – banheiro do Bunker

Dachau

Campo de Concentração Dachau – pole-hanging desenhado por Georg Tauber

Dachau

Campo de Concentração Dachau – caminhando pelos corredores do Bunker

Dachau

Campo de Concentração Dachau – outstandig cells: esta sala era dividida em três onde em cada uma delas só cabia um homem de pé.

Começamos nosso recorrido pelo Bunker, local insalubre, com cheiro de mofo, sombras e luz pálida.

Um lugar de tortura e condições sub-humanas, formado por celas individuais, salas de interrogatório e as outstanding cells, celas onde o prisioneiro tinha que ficar de pé, às vezes por dias, pois não havia espaço para nada mais, além disso.

O Bunker também foi usado para exames médicos, registros de prisioneiros e pela Gestapo, polícia secreta alemã, para arrancar confissões dos presos, mediante tormentos de toda espécie.

Os gritos não eram incomuns, muito menos a escuridão, a falta de comida e o uso do pole-hanging.

                     “Quatro meses no Bunker, quatro meses detido no escuro, quatro meses com comida quente apenas a cada quatro dias. O tempo se arrasta! Eu conto apenas a cada quatro dias, e fico surpreso quando a comida chega e me acorda. Estou em um estado de transe.”  

Erwin Gostner, Julho de 1938, austríaco preso e enviado para o Bunker entre Junho e Outubro desse ano, sendo depois enviado para o campo de concentração Mauthausen.

Daqui, seguimos para o cinema para assistir a um filme de 22 minutos (disponível em alemão, italiano, inglês, em horários distintos), um documentário sobre o campo, com cenas muito fortes, desoladoras. Os nazistas não roubaram apenas vidas, mas roubaram almas também.

Mesmo para quem não fala nenhum dos idiomas disponíveis, é importante assistir, pois ele nos ajuda a compor, a entender um pouco do que era a vida naquele pedaço de chão.

Os barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a área comum e os barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a área comum e os barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a área comum e os barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a área comum e os barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – os primeiros barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – os alojamentos nos primeiros anos

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o interior dos barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – com o passar dos anos, Dachau enfrentou superlotação de prisioneiros que tinham que se amontoar nos beliches disponíveis

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o banheiro nos barracões: sem privacidade

Os prisioneiros eram trabalhadores escravos, responsáveis, entre outras coisas, pela construção dos barracões onde seriam alojados e da manutenção do lugar. Sua mão de obra foi utilizada também para a indústria bélica e mais tarde absorvida por empresas privadas alemãs.

Inúmeras vezes eles eram obrigados a trabalhar por semanas, sem um único dia de folga ou descanso, frequentemente em ritmo acelerado.

Dentro dos barracões há explicações sobre a evolução e ampliação de sua estrutura para receber mais e mais prisioneiros e como as condições que já eram ruins, foram piorando com a superlotação, causando mais mortes por doenças como tifo, pelo frio e pela subnutrição.

“Nós congelávamos miseravelmente nas noites frias. Pouco depois da meia noite, o frio já havia espantado qualquer chance de conseguirmos dormir. Todos nós sofríamos com tosses e dores no peito durante os meses de outono e de inverno. As instalações sanitárias eram escandalosas. Dentro dos poucos minutos do toque de despertar, cerca de 40 ou 50 homens tinham que se lavar em uma pia de mais ou menos 90 centímetros, instalada sob duas torneiras.”

Depoimento dado por Fritz Ecker, 1933 -1934

Os dormitórios estavam muito longe de serem locais de descanso, sendo, ao invés disso espaço de abuso e humilhação. A rotina era determinada pela SS, incluindo a limpeza e arrumação das camas, tarefas que eram usadas para mais tortura e degradação, pois havia uma metodologia quase impossível de ser seguida, justamente para a promoção de mais crueldade.

Fritz continua seu relato:

“Há uma inspeção de cama todos os dias. Qualquer pessoa, na opinião da SS, que não tivesse arrumado devidamente sua cama era esbofeteado, machucado nas costelas ou proibido de escrever por duas semanas. Às vezes os três juntos.”

Isso acontecia no inicio do funcionamento de Dachau. Tudo ficou muito pior com o passar dos anos.

Pude ouvir Fritz relatando esses horrores através do áudio tour, sua voz desmanchando mais um pedaço de mim.

Prostíbulos no passado, templos religiosos no presente

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a alameda dos barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a alameda dos barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a alameda dos barracões

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a alameda dos barracões: nessas marcas havia barracões quando Dachau estava em funcionamento

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – os templos religiosos: (em sentido horário) Memorial Judeu, Capela Católica da Agonia Mortal de Cristo e Capela Ortodoxa Russa

Muitas experiências absurdas foram realizadas aqui como exposição dos presos a baixas pressões, hipotermia, ensaios humanos.

No fim da alameda dos barracões, ficava o prostíbulo. Heinrich Himmler incentivou a criação de bodeis dentro dos campos, pois acreditava que o ato sexual seria um eficiente revigorante para os homens encarcerados, ampliando assim sua produtividade.

Ele também usou a prostituição feminina como método de cura para os homossexuais.

Havia regras, porém: os prostíbulos só abriam à noite e o acesso a eles não era permitidos aos judeus, por exemplo. Além disso, não poderia haver mistura de raças entre os homens e as prostitutas. Muitas prisioneiras, submetidas a tais práticas, morreram por doenças, maus tratos ou abortos.

Hoje o que vemos nesse local são templos religiosos: judaico, ortodoxo russo, católico, entre outros. Uma tentativa de limpar o solo, o ar, a energia. Um sino em frente à capela católica dobra às 15 horas.

Vigilância constante

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – os limites do campo e o acesso ao crematório

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o icônico e aterrorizante arame farpado: limite de Dachau

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – os limites

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a alameda dos barracões e uma das torres de vigilância

Ao olhar para o lado, nos deparamos com o arame farpado que nos indica a divisa permitida aos prisioneiros. Dali eles não podiam passar. Havia vigilância constante para garantir que eles não ousassem atravessar a fronteira. Naquela cerca estavam os confins do mundo daquelas pessoas.

Alguns prisioneiros eram obrigados a fazer trabalhos externos e os guardas, de maneira proposital, os atrasava diante do toque de recolher e assim atiravam neles, que morriam sem nenhuma chance, para divertimento da SS e incremento de seus salários.

Os crematórios

Campo de Concentração Dachau (33)

Campo de Concentração Dachau – o crematório

Campo de Concentração Dachau (33)

Campo de Concentração Dachau – o crematório

Campo de Concentração Dachau (33)

Campo de Concentração Dachau – o crematório: porta de entrada

Campo de Concentração Dachau (33)

Campo de Concentração Dachau – o crematório: salas interligadas. No topo algo como chuveiros.

Após essa divisa encontramos mais áreas funestas, tenebrosas: local de execução de prisioneiros, geralmente com tiro na nuca, crematório, covas rasas e a assombrosa câmara de gás, que ninguém sabe ao certo a razão, mas que nunca foi usada aqui em larga escala, apenas em alguns ensaios isolados.

A SS construiu a área do crematório em 1940 porque o número de mortos subiu dramaticamente. Em 1942, um crematório maior e a câmara de gás foram construídos.

O edifício onde está alojado o crematório é composto de algumas salas interligadas, atualmente todas nuas, mas com uma forte e arrepiante energia impregnada naquelas paredes, tetos e pisos. Não podia ser diferente, diante do seu uso por tão longo período.

A câmara de gás

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o crematório: sala onde os corpos dos prisioneiros mortos eram armazenados antes de serem cremados

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o crematório: os fornos

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o crematório: os fornos que podia cremar de três a quatros corpos de uma única vez

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o crematório: a chaminé

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – a câmara de gás

A primeira sala em que entramos era utilizada para armazenar os corpos que vinham do campo de prisioneiros, que ficavam amontoados antes de serem cremados. Eram muitos! Pessoas, vidas, sonhos, dignidades foram atirados nessa sala. Faltou-me ar, sobraram lágrimas.

Em seguida entramos no crematório, onde pudemos ver quatro fornos, dispostos lado a lado. Cada um deles podia incinerar de três a quatro corpos de uma única vez. Eles eram conectados às chaminés por canais subterrâneos.

Acredita-se que nos anos de 1940 até 1943, aproximadamente 11.000 pessoas foram cremadas em Dachau.

A sala de despir era o local onde as vítimas eram obrigadas a deixar todas as suas roupas, desnudando-se completamente antes de entrar na câmara de gás, que era, de maneira dissimulada, chamada de “chuveiros”, para que não houvesse resistência por parte das vítimas.

A câmara de gás era equipada com falsos chuveiros: naquele recinto, durante 15 ou 20 minutos, cerca de 150 pessoas poderiam ser sufocadas até a morte, de uma única vez. Mesmo sabendo que aquela câmara de gás não foi utilizada em larga escala, estar ali dentro talvez tenha sido um dos momentos mais difíceis de toda a visita.

Os nacional socialistas, ao fim da guerra, tiveram a desfaçatez de afirmar que os americanos haviam construído as câmaras para incriminá-los.

As mulheres

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o crematório: área de execução com tiro na nuca, geralmente

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – o crematório: Não esqueça!

Mulheres das Forças Armadas Britânicas saltaram de paraquedas para apoiar a resistência francesa e foram fuziladas junto ao crematório.

Durante os anos de guerra, o crematório deixou de ser usado por falta de carvão, então os milhares de corpos passaram a ser jogados em valas comuns. As vítimas não eram registradas.

Algumas cinzas foram jogadas nesse terreno e essa área hoje é um local de recordação, de lembrança. Atrás do crematório há um pequeno espaço, muito verde, com símbolos judaicos e a inscrição: Não esqueça!

Quando chegamos aqui fazia um calor acachapante, atordoante que deixava tudo ainda mais opressivo. Nessa área havia mosquitos enormes, vorazes, assim como formigas.

Dachau: a cidade e seus habitantes

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau

Após a chegada dos americanos, os prisioneiros tiveram que ficar de quarentena por conta da proliferação de doenças contagiosas, que ainda matou muita gente.

Os habitantes de Dachau foram investigados e parte deles alegou que haviam sido enganados e que não sabiam o que acontecia naquele mundo sem lei, mas lucraram com o campo de alguma maneira e somente um pequeno grupo tentou se opor.

Em verdade, os prisioneiros tornaram-se parte do dia a dia da cidade. Algumas indústrias alemãs bancaram Dachau, bem como outros campos de concentração, ao utilizarem mão de obra escrava em suas produções: Basf (química), Bayer (química e farmacêutica), BMW (automobilístico), Allianz (seguros), Volkswagen (automobilístico), entre outras.

Em Dachau, com raras exceções, havia apenas prisioneiros do sexo masculino. Em 1944, entretanto, cerca de 7.000 judias chegaram ao campo para realizar trabalhos forçados e não era feita nenhuma distinção entre elas e os homens. Muitas foram submetidas a abortos e somente aquelas que já estavam em estado avançado de gravidez puderam ter seus filhos.

O Museu

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga o museu que conta a história do campo

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo através de objetos, cartazes e imagens

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo. Alguns elementos: (sentido horário) : prisioneiros subnutridos, imagens diversas dos horrores de Dachau, armário onde os prisioneiros podiam guardar seus pertences nos primeiros anos de Dachau, a evolução do uniforme, sendo que o listrado foi introduzido já em 1938.

Dirigimo-nos então ao museu, que possui um acervo espetacular com fotos e fatos que nos contam detalhadamente (em inglês e alemão) esse filme hediondo que foram os anos em que o NSDAP dominou a Alemanha.

Recordação do terror, do sofrimento e da sobrevivência. O caminho para o campo, a vida no campo, o caminho para a morte ou libertação, sob a perspectiva dos prisioneiros.

As paredes descascadas do prédio, onde antes funcionava a manutenção, nos dão a forte sensação de anterioridade e imagens pesadas tomam forma naquelas salas. Os cartazes e fotografias ajudam a compor o cenário e devo dizer que não foi fácil encarar tudo aquilo.

A sala de triagem

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo: sala de triagem

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo: sala de triagem com a inscrição É proibido fumar.

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – antigo prédio de manutenção, hoje abriga a exposição permanente que conta a história do campo: os banhos, outro local de tortura

A sala da triagem, onde os prisioneiros tinham que despir-se completamente para os agentes da SS que ficavam atrás de mesas, foi parcialmente reconstituída.

Ao longo dos anos, após 1945, ela foi usada para vários fins. Atualmente é possível ver a inscrição em uma das paredes: “É proibido fumar”, escrita naqueles anos, descoberta depois que camadas e camadas de tinta e reboco foram retiradas.

A eliminação da intimidade era uma forma de dobrar a pessoa assim que ela chegava ao campo.

Os novos e antigos prisioneiros recebiam um pedaço de sabão e podiam tomar banho, mas não era um momento de alívio. Aqui também se torturava, castigos físicos eram aplicados e os mortos que não resistiam a viagem de trem até Dachau, eram jogados aqui, durante o banho.

O museu dá cara ao terror ao nos mostrar a face das vítimas.

Georg Tauber, sobrevivente de Dachau

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau – exposição temporária de desenhos de Georg Tauber, sobrevivente de Dachau, sobre a tortura no campo

Ao fim do museu, em uma pequena sala, encontramos uma exposição temporária (até 28 de Fevereiro de 2017) de Georg Tauber, sobrevivente de Dachau, morto em 1950, com desenhos mostrando as diversas formas de tortura cometidas ali.

As ilustrações estavam cheias de doloroso realismo. A essa altura, minha alma estava em frangalhos.

Nunca Mais!

Campo de Concentração Dach

Campo de Concentração Dachau: monumento do iugoslavo Glid, sobrevivente do campo de concentração.

Campo de Concentração Dach

Campo de Concentração Dachau: monumento do iugoslavo Glid, sobrevivente do campo de concentração

Campo de Concentração Dach

Campo de Concentração Dachau: NUNCA MAIS!

Nós, visitantes, devemos render homenagens ao sofrimento das vitimas do nacional-socialismo. NUNCA MAIS!, diz a inscrição em várias línguas.

O monumento que se destaca é o do Iuguslavo, Nandor Glid, sobrevivente de um campo de concentração: vários corpos amontoados, entrelaçados, carbonizados.

A morte era companheira constante dos habitantes forçados de Dachau. Ela estava sempre à espreita, mostrando a cara com muita regularidade, levando milhares de pessoas com ela, frequentemente. Em desespero muitos tentaram pular a cerca de arame farpado e outros tantos cometeram suicídio.

Sofrimentos inimagináveis

Campo de Concentração Dach

Campo de Concentração Dachau, hoje um memorial

Isso é só um pouco do que Dachau nos mostra, mas há muito, muito mais que ver, sentir, absorver por lá. Essa é uma viagem individual, que cada pessoa vai sentir de uma maneira, mas eu espero que todos sintam, para que diante de assombroso espetáculo, possamos nos tornar mais humanos.

Esse lugar é dono de uma tristeza que arrepia o espírito, que nos verga, nos coloca de joelhos, com as mãos na cabeça em total estado de perplexidade. Nada daquilo parece real e, no entanto Dachau invade cada poro de nosso pensamento, presente e futuro, deixa sua marca.

Sofrimento e sadismo em doses cavalares foram sempre a temática dentro daquelas fronteiras por longos dias, semanas, anos, por um tempo que deve ter parecido interminável para aqueles que ali foram atirados, jogados, onde a violência era exercida desmedidamente, sem critérios, controle ou qualquer tipo de limite e o sinistro, o fúnebre, o tétrico, o doloroso ditavam o ritmo daquele lugar sombrio: era melhor morrer ou viver um dia mais?

Por todos os lados de Dachau, eu pude ouvir o sussurro e o lamento daqueles que ali pereceram e daqueles que sobreviveram, pois a energia de todos os que passaram por lá está impregnada naquele solo, naquele campo, pois ali deixaram sua dor, seu sangue.

As suas memórias e padecimento devem permanecer circulando pelo tempo necessário de virarmos seres humanos. Essa história, que pertence a todos nós, ainda será muito contada e repetida para que o futuro não nos traga novos equívocos.

Que haja por aí, entre nós, uma paz dormente, pronta para acordar e ser espalhada pelos quatro cantos do mundo. Só então poderemos enterrar o passado, deixar essa história como um antepassado morto, cuja crueldade é apenas uma lembrança de cores pálidas, quase como um espectro, porque então vibraremos amor e seremos civilizados.

Informações adicionais sobre o Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau

Campo de Concentração Dachau

A entrada é gratuita.

O áudio guia custa 3,50 euros, e para mim fez toda diferença, não só pelos detalhes a respeito do campo de concentração como pelos depoimentos que pude ouvir das testemunhas que sobreviveram ao holocausto.

Está disponível em diversas línguas, incluindo português de Portugal. Dispostos pelo campo estão cartazes com fotos e informações gerais sobre os diversos elementos, mas somente em alemão e inglês.

Horário de funcionamento: aberto diariamente das 9h às 17h. Fechado somente no dia 24 de dezembro.

Passamos 5 horas por lá e não foi suficiente para vermos tudo o que Dachau conta.

A minha sugestão de roteiro pelo campo: entrada, área comum, cinema. Depois o Bunker, os barracões, templos religiosos e área do crematório. Por fim o museu, para selar tudo o que vimos e ouvimos.

Veja como chegar em Dachau saindo da cidade de Munique:

+ Como chegar

Nada de Novo no Front

O excelente livro: Nada de Novo no Front de Erich Maria Remarque, que fala sobre a vida no front durante a Primeira Guerra Mundial, foi transformado em filme em 1930. Os nacional socialistas, bem como os ultra nacionalistas alemães, protestaram contra a mensagem pacifista do filme e articularam para que ele fosse proibido, o que aconteceu no mesmo ano.

Sugiro ainda outra leitura para quem quer conhecer um pouco mais sobre a trajetória dos nacional-socialistas em Munique que culminou com a Segunda Guerra Mundial. 

Clica no link bem aqui abaixo para ler a resenha do livro!

Cais da Ilha de Genebra

+ Cozinha venenosa – um jornal contra Hitler

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O Campo de concentração de #Dachau, que serviu de modelo para outros campos e foi o único que existiu durante todo o período nazista, é formado por muitas áreas que podemos visitar. É uma jornada difícil e sofrida, mas necessária para nunca esquecermos das atrocidades cometidas no campo durante a era nazista. #campodeconcentracao #nazismo #alemanha #historia #segundaguerramundial #espiandopelomundo #viajantesempressa #viagem              O Campo de concentração de #Dachau, que serviu de modelo para outros campos e foi o único que existiu durante todo o período nazista, é formado por muitas áreas que podemos visitar. É uma jornada difícil e sofrida, mas necessária para nunca esquecermos das atrocidades cometidas no campo durante a era nazista. #campodeconcentracao #nazismo #alemanha #historia #segundaguerramundial #espiandopelomundo #viajantesempressa #viagem

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O campo de concentração de Dachau

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Cais da Ilha de Genebra

By |2018-12-20T16:53:33+00:0006/10/2016|Categories: Munique|Tags: , |20 Comentários

20 Comments

  1. […] + Dachau […]

  2. Gisele Prosdocimi 11/10/2017 em 00:47 - Responder

    Sem palavras diante deste cenário aterrador. Seu post foi de um relato impressionante, um registro de suas sensações e emoções. Conseguiu transmitir sua indignação diante do que viu, as fotos são de uma dureza cruel, amenizadas pelo tempo.
    Os desenhos do ex prisioneiro só fazem certificar tudo que se passou ali, os nazistas com suas botas lustrosas de canos altos como sua arrogância, inatingíveis da condição humana de suas vítimas.
    Triste registro, mas importante, como tantos outros deveriam e deverão ser. Que nunca se apaguem, lembrar sempre, por mais doloroso que seja, para que nunca mais volte a acontecer.

    • Analuiza Carvalho 19/10/2017 em 07:47 - Responder

      oi Gisele… penso o mesmo. Por mais doloroso que seja estar em um lugar onde tantas atrocidades aconteceram, suponho que seja ainda necessário alardear os crimes cometidos, as atrocidades, toda a crueldade dos nazistas nos campos de concentração para que as gerações futuras não revisitem estes equívocos, não cometam os mesmos erros atrozes. Por um mundo de paz e respeito! 🙂 bjus

  3. […] + Dachau, Alemanha […]

  4. Edson Amorina Jr 17/10/2017 em 05:15 - Responder

    Visitar um campo de concentração é angustiante, né? Nós não fomos ainda para Dachau, mas conhecemos o o Sachsenhausen e foi uma passeio que ao mesmo tempo a gente vai como turista sofre pela memória.

    • Analuiza Carvalho 17/10/2017 em 08:49 - Responder

      É verdade Edson… eu acho que ninguém passa impune a uma visita a um campo de concentração. Meu único desejo é que esta história jamais se repita!

  5. Cris 19/10/2017 em 07:57 - Responder

    Ler sobre já é sofrido, imagina escrever, fazer fotos! Bem corajosa, você. E, embora cause tanto horror, acho importante mostrar para que nunca esqueçamos de tais atrocidades.Um abraço.

    • Analuiza Carvalho 20/10/2017 em 10:50 - Responder

      oi Cris… de fato, reviver estas histórias de horror, seja visitando, lendo ou escrevendo, mexe muito com a gente, explora nossa tristeza, invade nossa alma de sentimentos angustiantes… Contudo, é preciso lembrar para que nunca mais se repitam estas histórias hediondas né?! bjs

  6. quartodeviagem 21/10/2017 em 09:03 - Responder

    Eu já vi alguns filmes relatando a história desse campo e é realmente assustador, deve ser uma experiência arrepiante estar em um local tão carregado de diferentes emoções, é preciso que o mundo se lembre que isso aconteceu para que não ocorra novamente, o relato está incrível Ana, parabéns!

    • Analuiza Carvalho 22/10/2017 em 16:45 - Responder

      Obrigada Flávia… é arrepiante sim. É tão assustador que ficamos mesmo a pensar como pode existir tamanha crueldade no mundo né?! bjs

  7. Débora Resende 22/10/2017 em 15:39 - Responder

    Nossa, que lugar enorme! rs só de ver as fotos já me dá uma sensação estranha, imagino como deve ser difícil visitar um lugar desse. Achei curioso a entrada ser tão bonita, como se fosse um parque. É como se lá dentro fosse um outro mundo, né? :'(

    • Analuiza Carvalho 22/10/2017 em 17:47 - Responder

      É difícil sim Débora. Muito! É, de fato, um outro mundo, de terrores inimagináveis! 🙁

  8. Eloah Cristina 16/01/2018 em 09:52 - Responder

    Visitar um campo de concentração deve ser bem tenso! Só de ler eu já fiquei com uma sensação diferente, imagino lá, pessoalmente! =(

    • Analuiza Carvalho 16/01/2018 em 10:09 - Responder

      oi Eloah… acho que ninguém visita um campo de concentração impunemente: reflexões, tensões, lágrimas e tristezas… os sentimentos são múltiplos e individuais, mas acredito serem intensos para todos os visitantes.

  9. Rozembergue 17/01/2018 em 15:51 - Responder

    É uma experiência importante de ser vivida para que não deixemos que os erros do passado sejam repetidos no futuro. Já estive em Sachsenhausen e Auschwitz, mas pretendo visitar Dachau no futuro.

    • Analuiza Carvalho 18/01/2018 em 12:48 - Responder

      Eu concordo Rozembergue… Por mais doloridas que sejam estas visitas, não podemos e nem devemos esquecer estes horrores para que eles não se repitam. Um dia visitarei também Sachsenhausen e Auschwitz.

  10. Flávio Borges 17/01/2018 em 19:42 - Responder

    Nossa Analuiza! Imagino a sua sensação de estar em um lugar em que aconteceram tantas atrocidades… nunca estive em um campo de concentração antes, mas só de ler um relato assim já dá pra se ter uma noção que não deve ser nada fácil vivenciar de perto um período tão escuro da humanidade…

    • Analuiza Carvalho 18/01/2018 em 12:53 - Responder

      Não é Flávio, não é mesmo nada fácil… eu fiquei muito chocada em estar neste cenário terrível e descobrir o alcance da desumanidade, da maldade humana, do desprezo pela vida alheia e pelos requintes de crueldade… 🙁

      Em diversos momentos, caminhando pelo Campo de Concentração de Dachau eu me perguntei como pode tamanha crueldade acontecer entre seres humanos?!

  11. Adelaide 30/01/2018 em 08:06 - Responder

    Ana, obrigada por compartilhar conosco a tua experiência em Dachau. Infelizmente é um post necessário porque mostra sem subterfúgios que a realidade supera a nossa imaginação. E não dá trégua ao silêncio vergonhoso que imperou na Europa durante o Holocausto. Constato com pesar que a história ensina somente aos que tem coração. A crueldade humana, como a de Dachau, continua em várias partes do mundo.
    Uma parada obrigatória para qualquer viajante que deseja entender o mundo de hoje.
    Abs

    • Analuiza Carvalho 30/01/2018 em 18:52 - Responder

      oi Adelaide… isso me aterroriza: perceber a dimensão e o tamanho das atrocidades que ainda são cometidas nesse mundo! Assim como holocausto é incompreensível para mim. Ele deveria ter sido uma grande lição para a humanidade, mas parece que aprendemos pouco, pois o mundo ainda continua um lugar feio.

      De muitas maneiras vocês estão mais perto dessa triste história, mas ela pertence a todos nós, pois vivemos no mesmo planeta.

      Infelizmente temos e devemos continuar perpetuando este passado negro, para que mais corações sejam tocados e possamos, aos poucos que seja, criar um mundo mais humano.
      beijos e obrigada por esta mensagem tão lúcida quanto tocante.

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