As PEQUENAS cidades do MUNDO:

Eu tenho uma regra básica de viagem, uma premissa: a cada jornada, apenas um país é escolhido. Sou adepta do slow travel. Quando eu digo slow, é devagar de verdade. Aquelas viagens de cinco, seis, até dez países em duas semanas, nem pensar! Não funciona para mim. Em novembro de 2015 passei quinze dias em Florença. Um amigo me disse: para mim você “morou” 15 dias em Florença.

A razão principal desta opção é que eu acredito que um país tem muito a nos oferecer e às vezes as atrações mais marcantes estão longe das capitais ou dos grandes centros, onde temos mais chances de vivenciarmos experiências mais significativas, deixando assim sua marca, como tatuagem, em nossa alma.

As pequenas cidades do mundo: um caso de amor

Pequenas Cidades do Mundo

Escadarias de Girona, Espanha

Pequenas Cidades do Mundo

Ruas de Córdoba

Dito isso, afirmo com muita convicção que eu tenho um caso de amor infinito com as pequenas cidades do mundo: Omsk e Tomsk (Sibéria – Rússia), Edam e Haarlem (Holanda), Verona e Siena (Itália), Takayama (Japão), Girona e Córdoba (Espanha), Bath e Glastonbury (Inglaterra), Nuremberg e Münster (Alemanha) apenas para citar algumas.

As cidades pequenas são cheias de charme, de aconchego, de história e de muitas maneiras nos permitem participar mais de seu cotidiano, nos aceitam mais em seu contexto. Há uma troca maior entre nós turistas e as cidades menores, de ritmo mais lento.

Posso gastar apenas um dia em algumas dessas cidades ou me deixar ficar por dois, três dias, percorrendo suas ruas e vielas, muitas vezes quase vazias, tentando desvendar os seus mistérios, os seus segredos, seu funcionamento.

Em inúmeras ocasiões saí delas como entrei: sem entender, sem conhecer seus caminhos mais profundos, mas com certeza tendo vivido momentos que me modificaram, contribuíram para mudanças, pequenas ou não, em minha atuação como ser humano, pois as experiências costumam ser mais marcantes uma vez que o ritmo está longe de ser frenético.

Além disso, nas cidades pequenas posso utilizar meus pés e pernas para me locomover, pois as distâncias são mais curtas e assim vou sorvendo os lugares e suas nuances, suas cores e seus aromas. Vou observando sua gente.

Encontros e surpresas

Pequenas Cidades do Mundo

Um dia chuvoso em Glastonbury

Pequenas Cidades do Mundo

Em meu próprio balcão em Verona

Tenho tido deliciosas surpresas ao sair de grandes centros, como em Girona, Espanha, onde um senhor nos parou no meio da rua para conversar sobre sua Girona Aimada, tão gentil e apaixonado e em uma livraria, na mesma cidade, lugar que gastamos muito tempo conversando com o dono sobre livros e idiomas, traduções e cultura.

Isso sem falar no senhorzinho que correu uns 200 metros comigo, durante a meia maratona de Padova, Itália, gritando “bella“, quando viu que eu estava começando a quebrar. Ele salvou a minha corrida. Graças a ele cruzei a linha de chegada.

O que dizer então, do atendente da pizzaria, também em Padova, que ficou jogando conversa fora com a gente, falando da vida na cidade, enquanto assava pizzas?

Em Córdoba, Espanha, experimentamos os banhos árabes e quando saímos para a quente noite andaluza, sentamo-nos ao ar livre, molhados ainda, para vinhos, tapas e gazpachos. A noite estava silenciosa e a Mesquita resplandecia sob as luzes artificiais.

No bar em que paramos para comer, gastamos quase uma tarde conversando trivialidades com o atendente que parecia com o ator Javier Bardem. Ali mesmo, conhecemos uma indiana, linda, que estava passeando pela Andaluzia. Mais trocas culturais.

Omsk, Tomsk, Takayama, Nuremberg

Pequenas Cidades do Mundo

Pelas ruas de Omsk

Pequenas Cidades do Mundo

Descobrindo as belas casas de madeira de Tomsk

Em Omsk e Tomsk, na Sibéria, encontramos ótimos papos: uma senhora na pequena igreja nos explicou sobre os símbolos ortodoxos russos. Um jovem no Centro de Repressão levou horas conversando com a gente sobre os terríveis anos do comunismo e sobre a história de sua família. Sua amiga quis saber de onde nós éramos e como tínhamos ido parar tão longe.

Em Takayama vimos a neve cair enquanto tomávamos chá e comíamos bolo. Em uma casa museu uma senhora pequenina e sorridente, se aqueceu junto comigo em um fogo no meio da sala: conversamos, eu falando em um português gesticulado e ela em um japonês comedido. Como? Pura magia, dessas que encontramos nas cidades que nos acolhem. Se fechar os olhos, sinto tudo novamente.

Em Nuremberg, os recepcionistas do Centro de Documentação conversaram longamente conosco sobre justiça e sobre cultura. Em um dos restaurantes, o garçom conversou sobre futebol quando soube que éramos brasileiros. Sem zoação.

Münster, Edam, Évora e Bath

Pequenas Cidades do Mundo

Münster

Pequenas Cidades do Mundo

Pelas vielas de Évora

Em Münster a garçonete de um dos restaurantes que jantamos, ficou curiosa e perguntou qual a nossa nacionalidade e sem pressa alguma ficou trocando uma ideia conosco. Isso sem falar na possibilidade de pararmos o relógio e de simplesmente nos permitirmos estar, sem nenhuma outra preocupação que essa: viver o instante.

Em Edam a senhora abriu um museu só para nós. Depois a encontramos comprando pão e voltando para casa em um fim de tarde escuro e frio na Holanda.

Veja mais lindas e deliciosas informações sobre Edam:

Em Évora, Portugal, o dono de um dos restaurantes em que nós estivemos fechou a porta do estabelecimento ao fim do horário do almoço, nos ofereceu um digestivo e a conversa foi longe. Em Óbidos, o jantar foi demorado: além da deliciosa comida, a conversa não parava: com o garçom, a hostess e o proprietário.

Em Bath, diante de minha frustração nos Banhos Romanos, pois queria ficar mais tempo, o guarda carimbou o meu bilhete e me disse: volte amanhã! As fitinhas do Sr. do Bonfim fizeram sucesso no restaurante do hotel em que nos hospedamos na cidade: todas as garçonetes vieram nos pedir uma e o gerente deu risada com a movimentação. Sem stress. Sem pressa. Sem agonia.

Nas cidades menores temos tempo de absorver os climas, as experiências, os novos conhecimentos. Temos tempo de mudar a roupa da alma. O ritmo menos agitado, nos permite o contato. As cidades pequenas me permitem construir memórias afetivas mais profundas, com paciência e delicadeza, que eu carrego comigo, contribuindo para a construção do que sou: uma colcha de retalhos.

As grandes cidades do mundo

Moscou

Moscou

Eu adoro Londres, Amsterdam e Moscou. Petersburgo é maravilhosa. Tóquio e Mexico DF são intensamente deliciosas, mas para sentir um país, me embebedar de sua cultura, impregnar-me com sua beleza (nem sempre óbvia) eu prefiro o charme das cidades menores, mesmo tendo a certeza da multiplicidade de um país que em qualquer lugar oferece bons momentos para quem se abre para ele.

Mundo afora

Para finalizar, quero contar que a Maytê, do blog Passaporte com Pimenta, também adora as pequenas cidades do mundo e ela tem descoberto cada cidade mais linda e charmosa que outra! Eu costumo seguir viagem com ela, através de seus deliciosos textos. Quer viajar também?! Embarque aqui, direto para a Vila de Èze.

By | 2018-03-07T00:57:12+00:00 09/12/2016|Categories: A Arte de Viajar|22 Comentários

22 Comentários

  1. Michela Borges Nunes 23/06/2017 em 01:08 - Responder

    Legal esta maneira de apreciar os lugares. Eu sou meio afoita e parece que nunca mais vou viajar na vida, ahahahaha. Quero conhecer muitos lugares, mas já estou aprendendo a ser mais slow também. Quero chegar no teu patamar quando crescer, rsssss.

    • Analuiza Carvalho 23/06/2017 em 22:43 - Responder

      Oi Michela… eu já fui afoita também. Nunca gostei de atravessar fronteiras internacionais em uma mesma viagem, mas queria ver tudo na cidade e ficava frustrada se não conseguia ver. Mudei e hoje eu acho que aproveito bem mais! Mais vale ver pouco, mas com consciência e prazer. ehehehe beijocas

  2. maytescaravelli 26/06/2017 em 19:53 - Responder

    Ana, eu iria amar “morar” por 15 dias em florença, eu já fui 2x pra lá e voltaria outras tantas pois acredito que eu não conheço metade daquele lugar deslumbrante. Estou aprendendo a viajar assim e descobrir um país (mtas vezes uma região) por vez está sendo surpreendente. Já tive uma fase de check-ins e quantidade importava muito mais que qualidade, hoje me arrependo, inclusive desconsiderei todas as cidades que eu fiz isso dos meus check-in e considero que terei que voltar para todas elas para conhecer e não simplesmente passar.

    Como você mesmo mencionou não tem nada melhor que desvendar os mistérios de uma bela e pequena cidade, descobrir os segredos dos locais, os sabores e aromar. E as cores? Como amo apreciar as tonalidades de cada uma delas. =D

    Eu admiro muito esse seu jeito de viajar e de manter um contato, até uma relação com os moradores! Sou um pouco fechado e gostaria de começar a praticar esse estilo, seria inesquecível o dono do bar fechar as portas do local me convidar para um bom papo e um digestivo.

    Adoro te acompanhar, adoro saber das suas conversar ao redor do mundo, adoro o seu estilo de viagem! Obrigada por me mostrar o mundo de uma maneira tão doce e delicada.

    • Analuiza Carvalho 04/02/2018 em 13:58 - Responder

      Maytê, querida… viajar é mesmo uma arte onde aprendemos viajando. É tão gostoso ver que hoje você gosta de explorar mais, sentir mais, observar mais… tenho viajado constantemente com você e percebido seu olhar mais apurado, visitando de fato uma cidade e não apenas passando por elas, ticando, fazendo listas… Tenho feito deliciosas viagens com você através de seu passaporte cada vez mais apimentado. Que venham mais e mais viagens, experiências e sensações!!! 🙂 bjuuss

  3. Monique B.Ribeiro 29/06/2017 em 22:48 - Responder

    Ultimamente estou gostando mais desse estilo de viajar devagar e além disso gosto bastante de repetir a visita a lugares que gostei bastante. Também amo as cidades menores que sao cheias de charme e realmente nos mostram muito sobre um país, seu povo e cultura!

    Um abraço!

    • Analuiza Carvalho 29/06/2017 em 17:37 - Responder

      Oi Monique… não é bem mais gostoso assim?! Acho que a gente aprende muito e curte mais a viagem, absorve mais todas as coisa né?! bj

  4. NiKi Verdot 30/06/2017 em 07:32 - Responder

    Achei sensacional o seu post! Já fiz muita loucura de querer viajar e conhecer o mundo em uma única oportunidade de viagem (até pq nunca tinha tempo/dinheiro), mas hoje em dia eu concordo totalmente com você. E sou apaixonada por cidadezinhas menores. São um charme e que, na maioria das vezes, nos permitem conhecer verdadeiramente a cultura e a história do país não é? Parabéns pelo post. Amei!

    • Analuiza Carvalho 30/06/2017 em 08:14 - Responder

      Obrigada Niki! Fico feliz em saber que gostou do texto. Eu também já tive ansiedades, querendo conhecer muita coisa em pouco tempo e depois percebi que na verdade eu não conhecia nada! Viajar com freio de mão puxado, para mim, tem muito mais prazer. bjs

  5. quartodeviagem 30/06/2017 em 12:19 - Responder

    eu posso dizer que também adoro as pequenas cidades do mundo, na verdade eu moro em uma vila, e depois de um tempo morando aqui, tenho certeza que não trocaria nada por uma cidade grande. Mas confesso que adoro viajar pelas grandes cidades do mundo!

    • Analuiza Carvalho 30/06/2017 em 13:30 - Responder

      oi Flávia… acho que eu seria feliz morando em uma vila. eheheh

      Como afirmo no final do texto, eu também gosto da cidades grandes: amo Londres, conhecer Mexico DF e Tóquio, além de Moscou, foi incrível, mas meu apreço é mesmo todinho das cidades pequenas. rsrsrsr bjuuusss

  6. Camila Lisbôa 30/06/2017 em 14:40 - Responder

    Oi Analuiza! Eu também sou dessas so slow travel (devagar quase parada mesmo hahaa) e adorei essas suas pequenas histórias das pequenas cidades 🙂

  7. Klécia Cassemiro 30/06/2017 em 17:21 - Responder

    Ah, o amor que tenho pelo seu jeito viajante! Tão parecido com o meu! Delicado, perspicaz, atento, apaixonado!
    Pra que pressa, nao é mesmo? Com tanta beleza a ver em cada lugar pequeno, em cada cidade cheia de charme, em cada vila pequena no interior de um pais pequeno também. Eu me encanto com os seus relatos de cada um deles! E com os de Mayte também! Excelente referencia em descobrir lugares pequenos e lindos no mundo!

    • Analuiza Carvalho 30/06/2017 em 17:47 - Responder

      Oi Klécia… eu também viajo com suas viagens; talvez por esta maneira similar de vermos o mundo, não de interpretá-lo, mas de observá-lo, com atenção e curiosidade! Eu estou revendo Roma, por conta dos seus sentimentos, pela maneira como você viveu esta cidade, a percebeu! Quero revê-la, agora com outro olhar!

      Eu fico feliz de ter encontrado um “par” nesta ampla blogosfera. Fico feliz a cada novo comentário seu, porque sei que sentiu um pouco do que senti nos lugares! Assim, posso retribuir o que você me faz sentir quando viajo pelo Fui Ser Viajante! 🙂 beijocas

      • Klécia Cassemiro 30/06/2017 em 18:53 - Responder

        tentei colocar como resposta ao seu coment, mas não foi, Ai publiquei aqui!

        Eu tô com um post sobre Roma na agulha aqui, o ultimo que farei, exatamente falando sobre o que a cidade me fez sentir! Não vejo a hora de você ler e me dizer o que achou! Vamos viajando, amiga Ana 🙂

  8. Oi, Analuiza! Também sou adepta do slow travel e concordo que as cidades pequenas têm muito a nos oferecer; são incontáveis experiências e histórias no nosso livro da vida. Lembrei de vários durante a leitura! Que nunca nos falte estes momentos e pessoas interessantes por aí! 😉

    • Analuiza Carvalho 08/07/2017 em 21:58 - Responder

      Oi Gabi… isso mesmo! Que possamos nos achar e nos perder muitas e muitas vezes pelas pequenas cidades desse mundo enorme e interessante! 🙂

  9. Ruthia 01/07/2017 em 12:37 - Responder

    Li o seu post com vagares de budista, saboreando longamente as frases e consegui “enxergar-te”, Analuiza. Quase me senti a participar na conversa com a senhora japonesa em Takayama. Grata por este momento, porque me identifico demais com essa forma de encarar o mundo.
    Beijinho, minha querida

    • Analuiza Carvalho 08/07/2017 em 21:50 - Responder

      oi, oi… que gostoso ler este recado!!! Você sabe que eu adoro a maneira como você escreve e como olha as cidades e os lugares por onde passa. Por isso, esse recado tem um peso grande e um sabor muito especial para mim. Obrigada demais Ruthia. 🙂 beijuuusss

  10. Gisele Rocha 02/07/2017 em 21:01 - Responder

    Eu passei 8 meses em Florença e não consegui conhecer tudo o que a cidade guarda. Quando vejo um post “o que fazer em um dia em Florença” é como se tivesse levado um tiro no coração. Lindas as suas fotos!

    • Analuiza Carvalho 03/07/2017 em 08:52 - Responder

      Gisele, sinto o mesmo!!!! Eu passei apenas 15 dias (quem dera passar 8 meses) e também ficou muito por ver, conhecer e sentir! 1 dia não dá nem para situar esta cidade incrível!!!! rsrsrs Obrigada! bjus

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