A MENINA e sua magrela fazendo ARTE de rua na HOLANDA

O dia estava fresco, com temperatura amena, o cheiro da primavera no ar. A menina e sua magrela saíram pelas ruas da cidade, naquela manhã que já ia pela metade, quase findando.

Ela riu. Pedalou mais forte e depois deixou que sua companheira magrela a conduzisse. O vento na cara e a velocidade fizeram com que ela risse ainda mais. Ela era feliz!

Diminuiu o ritmo enquanto cruzava ruas até chegar na estrada, onde aumentou a velocidade novamente. Chegou a gritar de tanto prazer, enquanto acumulava quilômetros. Nem prestava atenção na paisagem, sua velha íntima.

Pedalou ainda mais forte, aproveitando que a temperatura naqueles lados, com muitos campos, estava mais fria, gelada até. A saia longa enrolada, as botas curtas aparecendo, o suéter de linha balançando suavemente. As pernas nuas se arrepiavam em contato com vento.

Em determinado momento parou, largou a bicicleta de lado e deitou-se na grama. Olhou o céu. Observou as nuvens, poucas, suaves, ligeiramente esgarçadas formando indistintos desenhos. Tomou fôlego, ouviu seu coração batendo acelerado. Sentiu um pouco de suor escorrendo.

Se tivesse um espelho perceberia as bochechas avermelhadas, como um por do sol que enrubesce o céu, e os cabelos despenteados. Ela nem ligaria.

Levantou-se e começou a pedalar de volta para a cidade. Com vigor. O vigor dos 17 anos.

Sua cidade. Ela era uma imigrante, mas nunca se sentiu assim. Sua família mudou-se para aquele pequenino lugar, vindos de muito longe, quando ela era ainda uma bebê de colo. Sempre viveu ali. Nunca foi muito longe.

Gostava dali. Não tinha necessidade de conhecer o mundo. Tudo o que precisava, apreciava estava bem ali, ao alcance de sua mão. Ela amava viajar sim, pelas páginas de um livro, deitada em um jardim, na sua cama, largada no sofá da sala ou nos degraus da igreja da cidade.

Em alguma cafeteria também era uma boa ideia.

Ela se considerava uma nativa. Suas raízes estavam fincadas ali. Todo mundo a conhecia e ela conhecia todo mundo. Todos os dias pela manhã ela saia pedalando, cumprimentando e sorrindo para toda a gente, que retribuía com simpatia àquela menina esfuziante e alegre.

Ela era tão grata pela vida que levava!

Seus olhos, ainda jovens, continuavam se encantando com a arquitetura local, com os inúmeros canais e pontes que ornamentavam a cidade e pelos antigos artistas da terra que pintaram a cidade de suas épocas.

Seu pintor favorito tinha inclusive vivido por ali, muitos séculos atrás. Ela já havia perdido as contas de quantas vezes viu seus quadros. Sempre se impressionava. Luzes e cores. Cotidiano. Cenas da vida.

Gostava de conversar. Sobre tudo e todas as coisas. Tinha imaginação fértil e ria com facilidade. Talvez este fosse um dos poucos aspectos de sua personalidade que a situavam como imigrante. Apreciava conversar com os mais velhos que a levavam a fascinantes viagens por tempos que ela não viveu.

Gostava de conversar com os muito novos que a deliciavam com suas descobertas de quem acabara de chegar ao mundo.

Ela comia pelas ruas, visitava a cúpula da catedral para namorar sua cidade e contemplava a arte das igrejas.

Sua bicicleta era sua principal companheira. Elas eram inseparáveis, estavam sempre juntas, voando para todo lado. Até o dia do acidente.

Ela seguia distraída, com a cabeça nas nuvens, viajando por algum mundo paralelo levada por seus devaneios e inventividade. Ela não o viu. Ele ainda gritou tentando alertá-la. Em vão! O choque foi inevitável.

Se embolaram, se machucaram, se enroscaram.

Sua pele muito branca rapidamente ficou roxa. Seu joelho ralado sangrava. Ela sentiu dor. Olhou sua bicicleta: retorcida, derretida, destruída. Ela chorou. Sentou no chão e pranteou desconsolada.

Levantou-se então. Pegou sua magrela e lentamente saiu andando em direção à sua casa, arrastando-a, arrastando-se. A bicicleta rangia, gemia, morria.

Sentou na porta de casa, apoiando sua companheira magrela na parede. Ficou ali muito tempo. Pensando. Pensando. Pensando.

Entrou. Tomou um copo d´água. Comeu cerejas enquanto continuava pensando. Saiu de novo. Seu joelho seguia sangrando. Arrastou a bicicleta mais uma vez olhando, olhando. A bicicleta ia se desmilinguindo, derretendo, derretendo…

Ela então parou. Olhou. Olhou de novo. Viu outra bicicleta, apoiada em uma vitrine. Aposentada de sua atividade primária, o transporte de alguém, agora embelezava as ruas da cidade para deleite dos transeuntes.

Sorriu. Instalou então sua companheira ao lado. Afastou-se um pouco. Observou. Apreciou. Sua companheira de muitos anos agora virou arte, adornando e enfeitando sua cidade do coração.

Voltou para casa. Fez café. Sua mãe cuidou de seus machucados. Pegou amoras. Deitou-se no sofá e embarcou num navio que estava enfrentando bravamente uma tempestade.

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Um conto sobre uma menina, sua bicicleta e vento no rosto.

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+ Em uma manhã fria na Toscana

By |2018-03-07T01:05:45+00:0004/11/2017|Categories: Cenas das Cidades|Tags: |2 Comentários

2 Comments

  1. Klécia Cassemiro 08/07/2017 em 08:37 - Responder

    Não pude evitar de associar imediatamente essa foto aos relógios derretidos de Dali. Será que houve intenção? Ou tudo no mundo tende ao “derretimento” com o passar das horas, e dos km, e só a gente que não percebeu ainda? Beijinhos!

    • Analuiza Carvalho 22/07/2017 em 18:42 - Responder

      Sabe que em nenhum momento eu tinha feito esta associação. Mas você tem toda a razão! No momento em que eu li sua mensagem, percebi que sim, uma imagem viva dos relógios derretidos. Acredito firmemente que tudo na vida se modifique, de uma maneira ou de outra, então no fim das contas, estamos sempre derretendo. 🙂 bjuus

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