A Herança de STALIN – três gerações de AMOR e GUERRA por Owen Matthews

Um jornalista inglês, Owen Matthews, filho de uma mulher russa com um homem britânico que decide contar a peculiar história de sua família. É disso que se trata A Herança de Stalin – uma narrativa sobre pessoas reais descortinada em solo russo através de variados momentos da trajetória do país, desde o início do comunismo até o fim da cortina de ferro.

Mervyn e Mila, pais de Owen viveram uma história de resistência, existência, teimosia e ilusões. Lutaram para ficarem juntos, baseados na sua interpretação de mundo significada pelo percurso individual de cada um. Não desistiram e acreditam com todo o coração num final feliz.

Conseguiram. Houve um final feliz, mas que era apenas um novo começo e eles não estavam preparados então para esta nova forma de vida, que se desenrolou de uma maneira que não tinham antecipado. Se agarraram a um sonho de formar uma família, por necessidade visceral, sem ter noção da realidade e se mantiveram firmemente presos às suas promessas de juventude, como Mervyn diria décadas depois.

Além do mais, ignoraram um fator relevante e poderoso: s diferença cultural. Ainda assim, eles se reinventaram e construíram uma vida juntos, embora constantemente apartados e com certo grau de frustração. Dessa vez, contudo, por decisão comum.

Mila e Mervyn

O casal se conheceu em Moscou durante os anos da cortina de ferro: ele um jovem estudante seduzido por aquele estranho país cheio de energia, ela uma sobrevivente dos tempos stalinistas, uma dissidente buscando construir uma vida. Se encantaram um pelo outro e durante longas caminhadas pela velha rua Arbat, decidiram casar. Contudo, acontecimentos e ações levaram a expulsão de Marvyn da União Soviética e o casamento foi cancelado. Começava então a peleja do jovem casal.

Anos de luta contra o sistema

A Herança de StalinEle na Inglaterra e ela na Rússia, passaram a se corresponder através de cartas, longas e detalhadas cartas que davam conta de seus cotidianos, suas esperanças, frustrações e condutas para estarem juntos.

Brigaram contra o poderoso sistema russo buscando autorização para se casar: Mervyn estava proibido de pisar em solo russo, Mila não tinha autorização para sair. Foram estas cartas que, décadas depois, Matthews, desenterrou e viajou pelo passado dos pais, resgatando sua própria existência.

À medida que acompanhava o casal de namorados, lembrei-me de mim mesma perambulando pela velha Arbat, uma das mais antigas ruas moscovitas, hoje lotada de turistas, mas que ainda guarda, aqui e acolá, lembranças de vários de seus passados. Naqueles meus dias em Moscou eu ainda não conhecia Mila e Mervyn, mas com certeza sua energia sonhadora e forte está estabelecida naquele lugar.

Em determinado momento naqueles longos seis anos de separação, Mervyn conseguiu burlar a vigilância ferrenha da temida KGB – Comitê de Segurança do Estado – sobre ele e se encontrou com Mila em São Petersburgo. Enquanto eu observava o casal apaixonado, determinado a não desistir, reafirmando suas esperanças de que teriam êxito em suas empreitadas, me recordei de minhas próprias andanças pela magnífica Peters, especialmente pela orla do Rio Neva, onde eles estiveram décadas antes de mim.

A Herança de Stalin

Às margens do Rio Neva em São Petersburgo

Mattews – a terceira geração

Matthews, por conta de sua origem materna, sempre teve forte relação com a Rússia, embora tenha sido criado em Londres; “Falei o idioma russo antes de falar inglês” – começa assim Owen a contar sua história em A Herança de Stalin. Havia alguma coisa naquele país que o chamava e prendia, assim como fez com seu pai. Uma paixão, uma energia intensa?! Quem sabe ao certo?!

Fato é que o jornalista trabalhou no país, se encontrou e se perdeu nele, visitou o submundo e presenciou a política e economia mudarem a vida das pessoas com a Perestroika e os anos vindouros. Conheceu pessoas e viveu sua própria história ligada e ao mesmo tempo desvinculada da de seus pais.

Bibikov, a primeira geração

Matthews ao nos contar a história de sua família nos leva ainda mais longe, até a época de Josef Stalin quando seu avô, ferrenho defensor do novo sistema, era vivo e trabalhou com orgulho e exaustão para construir uma nova nação mais justa e poderosa, segundo acreditou.

                   “Camaradas, vamos cumprir o Plano!” – Lema inscrito na parede do banheiro da fábrica de Boris Bibikov”

Em Bibikov está a melhor parte da história da família, onde o comunista de alma e fé foi mordido e traído. O sistema que ele apoiou o dentou e aniquilou, modificando profunda e definitivamente a trajetória de sua família: sua mulher Martha Shcherbak (com sua própria história de sofrimento e morte) e suas duas filhas: Lyudmila e Lenina. As marcas deixadas passariam de geração em geração. Matthews voltou à União Soviética, abriu velhas e empoeiradas caixas para então descobrir seu avô.

“Abri a capa de papelão marrom do arquivo de meu avô na NKVD, que já estava se esfacelando pelo decurso do tempo, numa cinzenta manhã de dezembro, num sombrio escritório do antigo edifício da polícia política em Kiev, atualmente centro de operações do Serviço de Segurança da Ucrânia”.

Bibikov… através dele entramos nos anos comunistas, vivenciamos nesgas de seus horrores, de seus pilares, de sua dinâmica. Tempos estranhos, sombrios, reais. Acusado injusta e cruelmente de conspirar contra o governo soviético, Bibikov foi torturado: “seu avô acreditava, mas você não acha que seus acusadores acreditavam também?!“, é questionado Matthews durante sua busca pelo passado do avô.

As coisas do mundo, mesmo aquelas imensamente cruéis, ruins, não são mesmo absolutas. Às vezes um mal pode ser guiado por uma boa e genuína intenção com resultados nefastos.

A Herança de Stalin

A Herança de Stalin – três gerações de amor e guerra

A Herança de Stalin tem valor por ser uma história real, por nos levar a recônditos antigos através dos olhos e da existência dos que sentiram na pele a força, a injustiça, os moldes e os prazeres, além da crueldade, ás vezes patética, da Rússia antiga e dos novos rumos que o país tomou quando então se abriu para a (suposta) democracia.

A Rússia de hoje continua sendo um lugar estranho e talvez por isso fascinante. Um lugar de pessoas simpáticas, agradáveis, gentis. Um país de monumentos inacreditáveis, suntuosos, grandiosos. Um país, receio, de muitas camadas, algumas delas bem escondidas de olhos curiosos e temporários, como os meus.

Voltar a Rússia de Bibikov, de Mila e de Matthews me fez mergulhar novamente neste país interessante e intrigante e entender um pouco mais e melhor tudo aquilo que vi nas poucas semanas que passei por lá, em visita, perambulando por algumas cidades e percebendo suas diferenças. Ajudou-me ainda a perceber o quão multidimensional é este enorme país de forte complexidade.

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By |2018-11-02T09:12:28+00:0027/10/2018|Categories: O Mundo nos Livros|Tags: , , |0 Comentários

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