A antiga CADEIA da Relação

Depois de um delicioso café da manhã na Leitaria da Quinta do Paço, que envolveu suave éclair e macio croissant, além de um forte, negro e encorpado café expresso, nós seguimos rumo ao Campo dos Mártires. Queríamos visitar a antiga Cadeia da Relação que hoje abriga o Centro Português de Fotografia.

A antiga prisão do Porto possui belo, encorpado, severo e grave edifício datado de fins do século XVIII.

Adentrando a antiga Cadeia da Relação

A antiga cadeia da relação

O Campo dos Mártires com o Centro de Português de Fotografia abrigado na antiga Cadeia da Relação

A antiga cadeia da relação

Adentrando o Centro de Fotografia Português abrigado na antiga Cadeia da Relação

O acesso é gratuito, mas quando lá estivemos, boa parte de seu interior passava por reformas e estava portanto fechado à visitação. Só tivemos permissão de nos relacionarmos com o andar primeiro. Uma pena. Queria ter percorrido aquelas celas e corredores.

Não obstante, daquele piso pudemos ter uma boa noção do que era aquele lugar quando atuava como prisão e conhecemos bastante de sua história e de como era o seu funcionamento.

Para entrarmos, atravessamos pesado portão de ferro que já nos posicionou diante da gravidade da antiga prisão. Entretanto, o passar dos anos e sua nova função como galeria, suavizaram a energia da antiga Cadeia da Relação, deixando a visita branda e leve.

A estrutura da antiga Cadeia da Relação

A antiga Cadeia da Relação

A antiga Cadeia da Relação

A prisão levou mais ou menos 30 anos para ser construída e aqui funcionava cadeia e tribunal. O edifício é constituído de grossas paredes de granito, grades duplas e portas de ferro.

No 1° piso estavam as enxovias ou cárceres que eram escuros, úmidos, gelados e o acesso se dava através de alçapões situados no andar superior.

Já no 2° andar ficavam os salões e saletas reservados às prisioneiras. Embora fossem ambientes coletivos, eram menos insalubres que os demais. Ana Plácido, acusada de adultério junto com o escritor Camilo Castelo Branco ficou aqui após a condenação de ambos, em 1860.

Por conta da prisão de Ana, entretanto, e de outra “senhora de distinção”, o corredor no último piso, gélido e escuro, foi fechado para fazer as vezes de cela e dar-lhes alguma privacidade. Neste andar estavam ainda, as prisões individuais reservadas para os presos “de condição”, além das enfermarias.

Superlotação e Camilo Castelo Branco

A antiga cadeia da relação

O primeiro piso da antiga Cadeia da Relação

Houve problema de superlotação. Reputados malfeitores, falsificadores, vadios, políticos em desgraça, além de revolucionários ficaram presos na Cadeia da Relação. Dois desses presos eram famosos: Zé do Telhado e Camilo Castelo Branco.

O primeiro foi um dos mais conhecidos e atuantes bandoleiros portugueses. Rola a lenda que ele roubava dos ricos para dar aos pobres, ganhando fama de Robin Hood português, granjeando assim, apoio popular.

Ex-militar, o salteador realizou roubos em todo o norte de Portugal, lá pela década de 1850, sendo preso em 1859 e enviado para a prisão no Campo dos Mártires, quando tentava fugir para o Brasil. Morreu exilado na África, onde teria vivido bem.

Quando esteve preso, Zé do Telhado conheceu Camilo, autor de Amor de Perdição (recomendo a leitura) e teria se tornado uma espécie de guarda costas do escritor que desconfiava que o marido de Ana tivesse subornado alguém para agredi-lo.

Zé é citado por Camilo no célebre livro Memórias do Cárcere, onde o escritor narra o que viu e viveu durante o período em que esteve na Cadeia da Relação: relatos que ouviu de outros detentos, além das terríveis e desumanas condições da prisão naquela época, que teria inclusive horrorizado D. Pedro em sua visita.

Contudo, Portugal não teve recurso suficiente para mudar a realidade da prisão, tendo ela sido desativada apenas após a Revolução dos Cravos em 1974.

Centro Português de Fotografia

A antiga cadeia da relação

Antiga Cadeia da Relação

Antiga Cadeia da Relação

Antiga Cadeia da Relação: detalhes

As enxovias tinham nome: as do primeiro piso chamavam-se Santa Teresa, Santo Antônio, São Vitor, Santa Rita, Senhor de Matozinhos e Santa Ana, por exemplo. No último piso estavam os Quartos de Malta.

Camilo Castelo Branco ocupou o Quarto de São João no segundo piso, numa cela individual, cuja face estava voltada para o exterior do prédio, um privilégio, já que as outras eram voltadas para dentro cuja única vista era a núcleo central da cadeia com suas paredes nuas e deprimentes. Aí ele escreveu Amor de Perdição.

Havia uma única exposição durante nossa visita ao Centro Português de Fotografia que funciona neste prédio desde 1997: não gostei.

Only You” de Leonardo Kossoy propunha através de um casal em diversas imagens com posições distintas discutir a relação, tentando responder a questionamentos do tipo: que relação pode comportar tamanha expectativa?, quantos estão neste você ou será ele a imagem espetacular?, a projeção inconsciente dos meus desejos e necessidades afetivas?

Confesso que a exposição de fotografias não me alcançou e me encantei e interessei muito mais pela Cadeia da Relação e suas histórias que pela proposta de Kossoy.

Histórias da antiga Cadeia da Relação

Antiga Cadeia da Relação

Antiga Cadeia da Relação

Ao deixamos o interior da Cadeia da Relação, nós ficamos conversando com o senhor que cuidava da recepção. Ele completou nosso recém-adquirido conhecimento sobre a cadeia oitocentista do Porto com algumas outras informações.

Ele nos contou que o tribunal ficava do lado esquerdo e as entradas eram separadas. Quando a reforma finalizar (sem data prevista, segundo ele) será possível visitar os outros ambientes. Quem entrava na Cadeia da Relação tinha que ficar ao menos duas noites.

Na época da ditadura portuguesa, andar descalço ou conversas em grupos, leia-se ai mais de duas pessoas, eram motivos suficientes para passar umas noites nas celas frias.

Ele narrou a visita de um senhorzinho de 92 anos que visitou o lugar para “matar as saudades”. Ele havia ficado preso ali por três meses por ter se pendurado nos bondes.

Mudando de assunto, mas mantendo a deliciosa tagarelice que nos prendeu por cerca de meia hora mais, ele nos disse que a gente do Porto era a mais simpática do país. Disse que lá eles procuravam resolver tudo amigavelmente e que costumavam ser um povo unido.

Ele afirmou que Porto era uma cidade segura, com um índice muito baixo de violência por conta desses elementos. Declarou, quando soube que chegaríamos até Lisboa, que perceberíamos facilmente as diferenças no tratamento.

Na hora eu ri porque achei que era a boa e velha rixa entre cidades, que na maioria das vezes é carregada de muito preconceito e pouca verdade, mas ele tinha razão: achei as pessoas no Porto mais abertas que em Lisboa.

Para finalizar, acrescentou que Lisboa só tinha duas coisas boas: o (time de futebol) Benfica e a estrada para o Porto! Riu tão gostosamente que não conseguimos evitar e rimos junto.

Agradecemos pela boa conversa e saímos para a luz do dia. Ainda havia muita coisa para explorarmos em nosso segundo dia no Porto.

Horário de funcionamento:

Terça a Sexta das 10:00 às 12:30 e das 14:00 às 18:00 e Sábados e Domingos das 15:00 às 19:00.

By |2018-03-07T00:56:38+00:0009/03/2017|Categories: Porto|Tags: |3 Comentários

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  1. […] Campo dos Mártires da Pátria, antiga Cordoaria do Porto, hospeda belíssimo prédio da antiga Cadeia de Relação da cidade, que hoje abriga o Centro Português de Fotografia. Esse espaço ficava fora […]

  2. […] próxima ao Campo dos Mártires da Pátria, onde visitamos a antiga Cadeia da Relação, encontramos a emblemática Torre dos Clérigos, estreita, singela e bonita dentro de sua […]

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